Chance de impeachment Trump é de 60% com Congresso democrata

22/08/2018 14:48:55

Por: Carolina Gama / Agência CMA

Donald Trump

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a primeira dama, Melania Trump (Foto: Casa Branca)

São Paulo – O investigador especial Robert Mueller pode fazer história ao mudar o comando da Casa Branca antes das próximas eleições presidenciais se conseguir comprovar que o presidente norte-americano, Donald Trump, obstruiu a justiça no caso da interferência da Rússia no pleito de 2016. No entanto, sozinho essa tarefa é mais difícil.

Hoje, Mueller precisa do Congresso – atualmente dominado por republicanos – para um eventual impeachment. Mas a eleição deste ano pode mudar esse cenário.

Caso a oposição democrata obtenha maioria nas eleições do Congresso em novembro, as chances de abertura de um processo de impeachment contra Trump aumentam, chegando a 60%, de acordo com média calculada pela Agência CMA com base em projeções de dez analistas. Os especialistas consultados, no entanto, lembram que são necessários dois terços do Senado para derrubar um presidente.

“A comprovação de obstrução de justiça ou ilegalidades envolvendo o financiamento de campanha são os principais fatores que podem levar os democratas – caso obtenham maioria no Congresso – a entrar com um processo de impeachment contra Trump e a saírem vitoriosos”, disse o economista da Capital Economics para os Estados Unidos, Michael Pearce.

Mueller está investigando se os associados de Trump conspiraram com os esforços da Rússia para interferir na eleição de 2016, e se o próprio presidente norte-americano tentou obstruir a justiça na demissão do diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI, a polícia federal norte-americana), James Comey, em maio de 2017, enquanto a investigação do FBI sobre a Rússia estava em andamento. Trump negou repetidamente conluio e obstrução, e Moscou rechaçou a possibilidade de interferência eleitoral.

Ontem, a situação de Trump se complicou ainda mais depois que seu ex-chefe de campanha, Paul Manafort, foi condenado por oito acusações criminais, enquanto seu ex-advogado pessoal, Michael Cohen, se declarou culpado por mais oito acusações, entre elas, a de pagar pelo silêncio de duas mulheres que alegam ter tido encontros sexuais com Trump. Cohen não só disse que recebeu ordens do então candidato, como reconheceu que os pagamentos foram feitos para influenciar o resultado da eleição de 2016.

“Até o final do ano passado, as chances de impeachment de Trump estavam entre 40% e 45%, mas o avanço das investigações de Mueller tem mudado esse percentual, que também ganhou impulso com uma possível maioria democrata no Congresso”, disse o estrategista da ADM Investor Services, Marc Ostwald. “As eleições do Congresso estão de mãos dadas com a investigação de Mueller para um impeachment de Trump”, acrescentou.

PARA DERRUBAR TRUMP

A saída de Trump da Casa Branca antes de um novo processo eleitoral, no entanto, não é simples. Especialistas explicam que o mero início de um processo de impeachment não é suficiente para que os Estados Unidos tenham um novo líder, mesmo após comprovação de obstrução de justiça ou ilegalidades no financiamento de campanha.

“As pessoas falam frequentemente em impeachment como se fosse sinônimo de retirar o presidente do cargo. No entanto, isso não é verdade”, disse o estrategista sênior do Rabobank para os Estados Unidos, Philip Marey, apontando para a complexidade do processo.

O diretor de pesquisas do Levy Institute, Jan Kregel, afirma que para remover um presidente norte-americano do cargo é necessário, primeiro, que a Câmara dos Representantes aprove – com maioria simples – o impeachment e, depois, pelo menos dois terços do Senado dê luz verde ao processo.

“O presidente [Bill] Clinton sofreu um impeachment pela Câmara em 1998, mas o Senado não acatou o processo e ele permaneceu no cargo”, afirma Marey.

O mesmo aconteceu com Andrew Johnson em 1868.

Na prática, nenhum presidente dos Estados Unidos foi removido do cargo via impeachment. “Quando a liderança republicana informou Richard Nixon que o impeachment era inevitável, ele renunciou e o processo nunca foi votado”, completou o estrategista do Rabobank.

TRUMP BLINDADO

Apesar de serem cada vez maiores as chances de Trump ser o primeiro presidente dos Estados Unidos na história a deixar o cargo por impeachment, o time de advogados do presidente norte-americano, liderado por Rudy Giuliani, tem se esforçado para blindar o chefe da Casa Branca.

O primeiro argumento apresentado pela equipe jurídica de Trump é que, de acordo com o Artigo II da Constituição dos Estados Unidos, o presidente não poderia ter obstruído a justiça diante de sua ampla autoridade em nomear e demitir membros do poder executivo. “A primeira reação [da equipe jurídica de Trump] foi apelar para conceitos básicos, que podem cair por terra com facilidade”, afirmou Ostwald, da ADM.

Diante da fragilidade da argumentação, Giuliani negocia a possibilidade de uma audiência entre Mueller e Trump. Mas, para que o encontro entre os dois aconteça, os advogados do presidente norte-americano exigem uma série de termos que restringiriam a atuação do investigador especial.

Na mais recente contraproposta da equipe jurídica de Trump estaria a possibilidade de questionamentos sobre o conluio com a Rússia, mas as investigações relacionadas à obstrução de justiça seriam limitadas.

Em recente entrevista à rede CNBC, Giuliani disse que a equipe legal “deixou em aberto” a possibilidade de que o presidente responda a uma pergunta sobre obstrução da justiça “se puderem nos mostrar uma questão de obstrução para a qual não obtiveram uma resposta”.

Giuliani afirmou ainda que na última proposta do investigador especial, Mueller concordou em diminuir o número de perguntas feitas ao presidente norte-americano, mas não aceitou o pedido da equipe de Trump de suspender as investigações de obstrução à justiça.

TRUMP NEUTRALIZADO

Ainda que o processo de impeachment de Trump não seja bem-sucedido, a maioria democrata teria condições de combater o presidente norte-americano atacando justamente sua maior fonte de orgulho: a força da economia dos Estados Unidos.

“É muito difícil imaginar uma vitória democrata em novembro que não leve a um processo de impeachment. Mas, caso o processo não seja aberto, a habilidade de Trump de aprovar sua agenda legislativa [que visa a impulsionar a economia] estaria seriamente comprometida”, disse Ostwald, da ADM.

O especialista sênior do Peterson Institute, Gary Hufbauer, lembra ainda que enquanto processo de impeachment estiver no Congresso, o país deve ficar estagnado. “O processo de impeachment deve mergulhar em águas políticas turbulentas, fazendo com que qualquer lei importante para a economia norte-americana tenha dificuldade em ser aprovada. O Congresso ficará semiparalisado”, afirmou Hufbauer.

Pearce, da Capital Economics, alerta ainda para a continuidade da divisão política nos Estados Unidos. “Ainda que os democratas obtenham maioria na Câmara e sigam com o processo de impeachment, eles não irão a lugar algum sem os republicanos. Por isso, acredito que a polarização política no país deve ser ainda maior”, disse Pearce.

TRUMP, DE NOVO

Apesar dos esforços da equipe jurídica de Trump para blindá-lo, é a força da economia norte-americana que pode garantir que ele siga no comando da Casa Branca caso as investigações de Mueller fracassem.

O forte ritmo de crescimento, o nível de aquecimento do mercado de trabalho e a volta de investimentos aos Estados Unidos são os principais elementos que podem proteger a imagem de Trump, arranhada por escândalos políticos. “A economia não poderia estar indo melhor em um momento no qual a imagem negativa de Trump ainda é forte”, disse Hufbauer, do Levy Institute.

O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos cresceu 4,1% no segundo trimestre de 2018 em relação ao trimestre anterior, em base anualizada, de acordo com a primeira leitura divulgada pelo Departamento de Comércio do país.

Já o mercado de trabalho criou 157 mil vagas em julho e a taxa de desemprego caiu de 4,0% para 3,9%.

“Os eleitores com certeza darão crédito a Trump pela atual força da economia. O grande risco, na minha visão, é que o efeito dos cortes de impostos seja limitado e o aperto monetário faça a economia desacelerar até as eleições de 2020”, afirmou Pearce, da Capital Economics.

Marey, do Rabobank, destaca também que não só a força da economia, mas a de um rival democrata será determinante para uma possível reeleição de Trump. “A principal questão é se os democratas conseguirão um candidato forte o suficiente para vencer as próximas eleições presidenciais. Até o momento, isso não aconteceu”, completou.

Edição: Pâmela Reis (pamela.reis@cma.com.br)

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Nota: Título do texto foi alterado, uma vez que o percentual de 60% se refere à chance de abertura do processo de impeachment, mas não de derrubada do presidente.

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