Cautela dita o ritmo dos mercados; Ibovespa e dólar caem

Por Danielle Fonseca e Flávya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em leve queda pelo terceiro dia seguido, com perdas de 0,30%, aos 93.627,80 pontos, refletindo maior cautela com a cena política doméstica, depois de declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, e à espera de manifestações pró-governo no próximo domingo (26). No exterior, a guerra comercial entre China e Estados Unidos segue preocupando, embora o dia tenha sido um pouco mais positivo para os principais mercados acionários. O volume total negociado foi de R$ 12,7 bilhões.

Apesar das leves baixas dos últimos três dias, o Ibovespa ainda encerrou em alta de 4,04% na semana, com investidores vendo o destravamento da agenda do Congresso e aprovações de medidas como um sinal positivo para o andamento da reforma da Previdência.

Segundo o economista da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo, o feriado na segunda-feira nos Estados Unidos, que manterá os índices do país fechados, já reduziu o volume de negócios nesta tarde, com investidores preferindo não fazer grandes movimentos antes do fim de semana. Para ele, as declarações de Guedes também trouxeram um “pouco de apreensão” para o mercado, apesar já serem esperadas.

Em entrevista à revista “Veja”, o ministro da Economia disse que renunciará se a reforma da Previdência virar uma “reforminha”, sendo muito diluída no Congresso, ou se não for aprovada. Em resposta, o presidente Jair Bolsonaro disse que ninguém é obrigado a continuar como ministro, e que Guedes está vendo uma catástrofe se a reforma não for aprovada, visão com a qual concorda. O economista ainda destaca que as manifestações pró-governo, previstas para este domingo, devem ser monitoradas pelo mercado, depois que a popularidade do governo Bolsonaro ter caído em pesquisas.

No exterior, segue no radar, a guerra comercial, ainda sem definição, sendo que hoje o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou a empresa chinesa Huawei Tecnologies de “muito perigosa”, mas disse que as reclamações do país sobre a companhia podem ser resolvidas como parte de um acordo possível comercial com a China. As afirmações foram vistas com um sinal mais positivo e ajudaram bolsas a fecharem em leve alta.

Entre as ações, as da Vale (VALE 1,02%) acompanharam a alta dos preços do minério de ferro e ajudaram o Ibovespa a não ampliar perdas. Também tiveram fortes altas os papéis da Gol (GOLL4 5,16%), de frigoríficos, como da JBS (JBSS3 4,27%) e da Natura (NATU3 3,79%), ainda refletindo a compra da Avon. Na contramão, as maiores quedas do Ibovespa foram da Suzano (SUZB3 -7,39%) e Klabin (KLBN11 -4,43%). As ações do setor de papel e celulose estão sendo afetadas por uma maior queda do dólar por serem exportadoras, além de sentirem a guerra comercial e possibilidade de menor demanda.

Para segunda-feira, o volume de negócios pode ser menor em função de feriado nos Estados Unidos, no entanto, a guerra comercial segue no foco, assim como o andamento da reforma da Previdência. Investidores devem aguardar a votação de mais medidas provisórias no Congresso e repercutir as manifestações de domingo. Para o economista da Órama, o Ibovespa pode voltar a subir com mais ímpeto, porém, será preciso “dinheiro novo”, com investidores estrangeiros voltando, o que só deve ocorrer com a concretização da reforma da Previdência.

Para o economista-chefe da Codepe Corretora, José Costa, o Ibovespa também deve continuar oscilando em torno do patamar atual. “Enquanto não esquentar o jogo da votação da reforma o Ibovespa deve ficar entre 93 e 95 mil pontos”.

Já o dólar comercial fechou em queda de 0,76%, cotado a R$ 4,0170 para venda, na menor cotação desde o início da escalada da moeda estrangeira, que está há sete pregões acima do nível de R$ 4,00. O dia foi mais positivo no exterior em meio aos comentários otimistas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a guerra comercial que trava com a China e sem notícias negativas na política local.

O diretor da Correparti, Ricardo Gomes, atribui a melhora do dólar às declarações positivas Trump em relação ao acordo comercial com a China. Segundo o presidente norte-americano, as tratativas entre os países deverão continuar no mês que vem quando pretende se encontrar com o presidente chinês, Xi Jinping, durante reunião da cúpula do G20. “Declarações que melhoraram o ambiente para negócios. Nem mesmo a renúncia da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, ao cargo foi capaz de limitar os negócios”, avalia.

A divisa estrangeira fecha a semana com recuo de 2,07%. Para o economista-chefe da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santos, o saldo da semana foi positivo com a votação da medida provisória (MP) 870 – que trata da reforma administrativa – e houve sinalização de que reforma da Previdência pode caminhar no próximo mês.

“O dólar saiu de R$ 4,10 para R$ 4,01. Não sei se tem espaço para cair mais na semana que vem porque acho que estamos em patamar de preços em que precisamos de dinheiro novo para andar. Não vai ter dinheiro novo antes da reforma, o investidor estrangeiro está esperando”, pondera Espírito Santo.

Na semana que vem, a agenda de votações de MPs perto de caducar continua e deverá continuar no foco dos investidores. Na agenda de indicadores, as atenções devem ser voltar ao resultado do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, o qual o mercado pretende ver o quanto a economia ficou enfraquecida no primeiro trimestre do ano, já que um resultado mais fraco é esperado. “Com a confirmação do dado [PIB], as estimativas de crescimento em 2019 tendem a ser revisadas pelo mercado, mantendo a tendência baixista das últimas semanas”, ressalta a equipe econômica do Bradesco.

Na segunda-feira, o viés é de baixa liquidez no mercado de moedas com o feriado nos Estados Unidos e em Londres. “O mercado local dará o tom. Na abertura, o mercado pode repercutir as manifestações a favor do governo de Jair Bolsonaro no domingo. Vale observar o tom e o que o presidente falará a respeito”, avalia um analista de investimentos de uma corretora local.

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