Bolsa sobe puxada por ações da Petrobras; dólar avança com guerra comercial

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa subiu pelo segundo pregão seguido, com ganhos de 0,53%, aos 102.673,68 pontos, amparado pela forte alta das ações da Petrobras e pela queda da Selic nesta semana. O otimismo local fez com que o Ibovespa fechasse no azul mesmo com um cenário externo negativo, diante do aumento da tensão comercial entre China e Estados Unidos, e em uma semana conturbada, que contou ainda com reuniões do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e do Comitê de Política Monetária (Copom). O volume total negociado foi de R$ 18,9 bilhões. Na semana, o índice caiu apenas 0,14%.

“As novas tarifas anunciadas pelo Trump são um fato que não estava precificado pelo mercado, que reagiram de forma ruim, mas, mesmo assim, o Ibovespa está fechando em alta”, disse o analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino, destacando a resiliência da Bolsa brasileira e afirmando que a queda da Selic, além de expectativas de futuros cortes, são um dos motivos para a tendência de alta do Ibovespa. Uma taxa de juros mais baixa faz investidores migrarem para a renda variável em busca de maior rentabilidade.

Ontem, o presidente norte-americano Donald Trump disse que deve impor tarifas adicionais de 10% sobre US$ 300 bilhões de importações chinesas, a partir de 1 de setembro, surpreendendo investidores, sendo que a China já ameaçou com retaliações.

A temporada de balanços também tem ajudado no desempenho do índice, caso dos papéis da da Petrobras (PETR3 3,03%; PETR4 3,59%) hoje, que teve a maior contribuição para a alta do Ibovespa, refletindo seu balanço trimestral e a recuperação dos preços do petróleo, que ontem caíram mais de 7%. “O resultado da Petrobras foi positivo, a empresa conseguiu reduzir a sua alavancagem e deu sinalização bem positiva de que desinvestimentos vão continuar, principalmente na área de gás”, afirmou o analista da Necton Corretora, Gabriel Machado.

Além da Petrobras, ficaram entre as maiores altas do Ibovespa as ações da RD (RADL3 3,75%). Na contramão, as maiores perdas foram das ações da Cielo (CIEL3 -4,31%) e da Gol (GOLL3 -3,06%), que devolveram os fortes ganhos do pregão anterior. As ações da Cielo chegaram a subir mais de 13% ontem diante de rumores de que o Banco do Brasil irá vender sua fatia na companhia, no entanto, o banco não confirmou a informação.

Na semana que vem, investidores devem continuar atentos à guerra comercial e analisando os próximos balanços corporativos, lembrando ainda que o recesso parlamentar chegará ao fim, com o Congresso podendo dar continuidade à votação de reformas. Para o CEO da WM Manhattan, Pedro Henrique Rabelo, a baixa taxa de juros também pode continuar sustentando a tendência de queda do Ibovespa, que não vê caindo abaixo dos 100 mil pontos.

“Os balanços podem surpreender e isso, alinhado a uma redução da Selic acima do que o mercado esperava, pode aumentar o fluxo comprador. Tudo indica que a tendência de alta pode voltar na próxima semana”, afirmou.

O dólar comercial fechou em alta de 1,16% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8930 para venda, próximo à máxima do dia de R$ 3,8940 (+1,19%) – na quinta alta seguida e na maior cotação desde 17 junho, quando fechou a R$ 3,9010. A sessão foi de forte aversão ao risco nos mercados globais reagindo ao anúncio dos Estados Unidos de imposição de tarifas sobre produtos chineses e com os passos da política monetária norte-americana ainda incertos.

Em semana marcada pelo corte da taxa básica de juros nos Estados Unidos, de 0,25 ponto percentual (pp) após 11 anos e aqui, na mesma magnitude – após 16 meses de estabilidade – o dólar se valorizou em 3,18%, na terceira semana seguida de alta.

Para a equipe econômica da Capital Economics, a decisão do presidente norte-americano, Donald Trump, de reduzir as tensões com a China claramente aumentou a pressão sobre o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) para liberar mais política monetária. “Mas a relativa resiliência do crescimento do emprego sugere que as tensões comerciais por si só não serão necessariamente suficientes para convencer os dirigentes [do Fed] a reduzir as taxas novamente”, dizem os analistas.

Eles acrescentam que os números do relatório de emprego dos Estados Unidos, o payroll, divulgados hoje não mudou o cenário em que o corte de juros ainda é uma preocupação. “O payroll reforça o senso de que não há garantias de que haverá outro corte de juros como o mercado já está precificando neste momento”, avaliam.

“O claro posicionamento de Trump muda drasticamente o clima entre as duas maiores economias globais. O que antes parecia estar se encaminhando para uma dissolução amigável, agora, o sentimento de enfrentamento volta a prevalecer e reflete decisivamente na precificação dos ativos, aqui e lá fora”, diz o analista de câmbio de uma corretora nacional.

Na próxima semana, as apostas são de correção da moeda estrangeira no mercado doméstico com a volta das atividades parlamentares no Congresso Nacional e consequentemente, com a volta das discussões em torno das agendas de reforma. Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, a reforma da Previdência voltará a ser discutida na terça-feira e deverá ser aprovada em segundo turno no plenário ainda na semana que vem.

“A volta do Congresso e os desdobramentos da guerra comercial entre norte-americanos e chineses são dois indutores importantes que deverão nortear os negócios nos próximos dias. Claro, caso não tenha nenhum fato novo. O mercado local voltará a fazer preço nos ativos”, diz o diretor de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik.

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