Bolsa sobe e dólar cai em dia de otimismos externo e na política interna

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa encerrou em alta de 1,53%, aos 98.960 pontos, refletindo a forte valorização das ações da Vale e siderúrgicas e a melhora do cenário político doméstico, com aprovação do projeto de lei que libera crédito extra para o governo pagar despesas correntes. Com isso, o índice foi ao maior patamar de fechamento desde o dia 19 de março (99.588,37 pontos) e volta a se aproximar do patamar histórico de 100 mil pontos também atingido em março. O volume total negociado foi de R$ 17,4 bilhões.

“Tivemos muitas notícias positivas juntas hoje e tudo indica que a questões da Previdência estão andando”, disse o analista da Terra Investimentos, Régis Chinchila. O analista cita a aprovação do projeto de lei (PLN 4/2019), na Comissão Mista do Orçamento, que autoriza o governo a tomar empréstimos para financiar despesas correntes, quebrando a chamada “regra de ouro”, após um acordo de governistas com a oposição.

Além disso, o PSDB deve fechar questão sobre a reforma da Previdência e os governadores pressionaram pela inclusão dos estados no projeto em Fórum ocorrido hoje em Brasília. Essas sinalizações mais positivas vindas da cena política reduzem os ruídos em torno das conversas entre procuradores da Lava Jato e o ministro da Justiça, Sérgio Moro, e alimentam expectativas sobre o relatório da reforma da Previdência, que será apresentado na quinta-feira em comissão especial.

Além do bom humor local, o Ibovespa ainda refletiu o anúncio do governo chinês de que emitirá títulos locais especiais para financiar projetos como os de infraestrutura, em mais uma tentativa de apoiar a expansão econômica da China. Com isso, os preços dos contratos futuros de minério na bolsa chinesa de Dalian subiram, com o contrato mais negociado avançando 3,8%. A alta da commodity é sentida diretamente pelos papéis da Vale (VALE3 6,39%), CSN (CSNA3 5,68%) e demais siderúrgicas, que ficaram entre as maiores valorizações do Ibovespa.

“A notícia de que o governo chinês fará estímulos no setor de infraestrutura é muito positiva, deve trazer investimentos e o mercado já precifica um aumento de demanda de minério de ferro”, disse o diretor de investimentos da SRM Asset, Vicente Matheus Zuffo.

Os papéis da Petrobras (PETR3 1,87%; PETR4 1,91%) também aceleraram ganhos na parte da tarde refletindo a assinatura de termo de compromisso entre a estatal e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no qual são consolidados os entendimentos para a venda de ativos na área de refino no Brasil. Na contramão, as maiores quedas do Ibovespa hoje ficaram com as ações do IRB Brasil (IRBR3 -1,69%), da Via Varejo (VVAR3 -1,19%) e da Estácio (ESTC3 -1,17%).

Amanhã, o índice pode ter alguma volatilidade em função do vencimento de opções sobre Ibovespa, mas na avaliação do analista da Terra Investimentos pode ser mais um dia positivo para a Bolsa, sendo que não descarta que o índice possa voltar a testar os 100 mil pontos. “Acho que pode subir mais amanhã, com o mercado precificando um relatório positivo da Previdência na quinta-feira”, afirmou.

O dólar comercial fechou em queda de 0,90% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8500 para venda, após renovar mínimas sucessivas ao longo da sessão chegando à mínima de R$ 3,8440 (-1,05%), em linha com o mercado externo, onde o cenário foi positivo para moedas de países emergentes. Aqui, investidores reagiram aos avanços da pauta política com a aprovação do crédito extra para o governo federal, enquanto aguardam a apresentação do parecer da reforma da Previdência, previsto para quinta-feira.

O diretor da Correparti, Ricardo Gomes, destaca que o acordo entre parlamentares da base do governo e da oposição permitindo a votação do pedido de crédito suplementar de R$ 248,9 bilhões para cumprimento da regra de ouro do orçamento, “alimentou” o otimismo local que levou o investidor a buscar risco.

Na segunda parte dos negócios, a moeda estrangeira acelerou as perdas frente à moeda local após a Comissão Mista de Orçamento (CMO) aprovar o PLN 4/2019, que autoriza a União a tomar um total de R$ 248,9 bilhões em empréstimos para financiar despesas correntes. A votação ocorreu após acordo entre governo e a oposição para rever o contingenciamento de gastos com Educação. O texto está no plenário do Congresso e deve ser votado ainda hoje.

Ele destaca que o movimento de queda também foi corroborado pela tendência de adesão dos governadores quanto a inclusão de estados e municípios no regime geral da Previdência. “As declarações do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, apelando pela blindagem do legislativo a qualquer crise também ajudou”, comenta.

Maia se referiu ao caso envolvendo o ministro da Justiça, Sergio Moro, que interferiu nas investigações da operação Lava Jato segundo reportagem do site The Intercept que divulgou troca de mensagens entre Moro – quando juiz federal – e o procurador Deltan Dallagnol.

Amanhã, com a agenda de indicadores mais fraca aqui e nos Estados Unidos, o gestor de investimentos, Paulo Petrassi, destaca que a tendência do mercado doméstico segue positiva, “mas pode ter correções no caminho”, alerta.  Na China, serão divulgados os índices de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) e de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) no mês passado. Petrassi reforça que os números e outros eventos externos devem continuar no foco dos investidores.