Bolsa sobe e dólar cai com revisão da proposta da Previdência e economia de R$ 900 bilhões

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em alta de 0,46%, aos 98.773,70 pontos, desacelerando ganhos no período da tarde com uma realização de lucros e queda de ações de bancos depois que foi apresentado o parecer da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara. Investidores aprovaram a economia de cerca de R$ 915 bilhões que foi apontada no texto, mas já vinham precificando uma reforma mais robusta nos últimos dias. O volume total negociado hoje foi de R$ 18,8 bilhões.

“Acho que houve um pouco de realização de lucros agora à tarde, a Bolsa já subiu antecipando o parecer da reforma. O mercado estava esperando uma economia de no mínimo R$ 800 bilhões e foi atendido, apesar de alguns pontos terem sido retirados, com a capitalização”, avaliou o analista de investimentos do Banco Daycoval, Enrico Cozzolino.

Para o sócio da DNAInvest, Leonardo Ramos, o parecer da reforma também foi positivo, mas agora o mercado deve ficar de olho nas próximas etapas da tramitação do projeto, com novas sessões na comissão para que depois seja votado no plenário na Câmara. “Vamos ter que ver quando vai ser votado em plenário, se vai desidratar mais etc. Para a Bolsa subir com mais força agora vamos ter que ter fatos novos”, afirmou.

O valor de cerca de R$ 915 bilhões a ser economizado em 10 anos e confirmado pelo relator da reforma na comissão, Samuel Moreira (PSDB-SP), foi visto como positivo por não estar tão distante dos cerca de R$ 1 trilhão prometidos pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. No entanto, não agradou a elevação de 15% para 20% da alíquota de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido CSLL para bancos e a ausência do sistema de capitalização. Estados e municípios também ficaram fora do texto por enquanto.

A possível elevação da CSLL afetou os papéis de bancos, como as ações do Bradesco (BBDC4 -1,09%) e do Itaú Unibanco (ITUB4 -1,79%). Outros papéis que ficaram entre as maiores perdas do Ibovespa foram as ações da JBS (JBSS3 -2,62%) e da Eletrobras (ELET3 -2,08%; ELET6 -2,14%), que ampliaram perdas perto do fim do pregão.

Na contramão, as ações da BRF (BRFS3 5,81%) e da Marfrig (MFRG3 4,45%) ficaram entre as maiores valorizações, depois da notícia de que as exportações de carne bovina para a China serão retomadas. As ações da Suzano (SUZB3 5,52%) e Ultrapar (UGPA3 4,74%) também tiveram fortes altas.

Amanhã, investidores devem monitorar o tamanho da greve geral convocada por centrais sindicais contra a reforma da Previdência, além de continuar a acompanhar ruídos políticos e o andamento da Previdência. Na agenda de indicadores, atenção para dados de produção e venda industrial da China e dos Estados Unidos.

Para o analista do Daycoval, não está descartado que o Ibovespa possa mostrar mais alguma realização de lucros e correção no curto prazo, depois do relatório da reforma, no entanto, ainda vê uma tendência de alta, com o tom positivo sendo mantido.

O dólar comercial fechou em queda de 0,38%, cotado a R$ 3,8550 para venda, reagindo à apresentação do parecer da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara dos Deputados. O relator do texto, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), leu a matéria revisada e que prevê economia de R$ 913,4 bilhões em 10 anos, ficando acima do esperado pelo mercado, o que alimentou o bom humor local.

Mesmo com o montante acima do esperado pelos investidores – que apostavam em economia entre R$ 800 bilhões a R$ 900 bilhões – e com os avanços da pauta, o dólar ainda resistiu ao nível de R$ 3,85, mesmo tendo renovado mínimas no início da sessão a R$ 3,8360 (-0,88%). “Há sim resistência nos R$ 3,85”, comenta o diretor de câmbio do grupo Ourominas, Mauriciano Cavalcante.

Ele acrescenta que amanhã o mercado acompanhará os desdobramentos da apresentação do parecer e comentários de parlamentares sobre a versão apresentada pelo relator. “Agora, o mercado ficará a mercê de declarações do Congresso de que falta articulação política por parte do poder executivo, o que pode gerar volatilidade nos mercados. Mas ainda aposta em viés de que pelo menos no pregão de amanhã”, diz.

Para Cavalcante, o cumprimento de prazos dos próximos passos ficará no radar do mercado e poderá gerar estresse no mercado. Porém, ele acredita que os prazos “serão compridos”. Nesta semana, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, afirmou que a comissão especial deverá votar o documento apresentado hoje até 25 de junho.

Hoje, líderes partidários chegaram a um consenso de retomar a reunião da comissão especial na terça-feira (18). O pedido de vista é feito para que parlamentares avaliem a proposta com mais tempo. Durante a sessão de apresentação, deputados acordaram que Moreira lesse apenas seu voto, dando como lido o relatório e o substitutivo da proposta e abreviando a reunião.

Amanhã, a aposta é de que o viés de queda se mantenha ainda influenciado pelo cenário político dado como positivo após avanços na tramitação da reforma da Previdência. “A tendência é de que o dólar dê mais uma recuada chegando a R$ 3,82”, aposta o diretor do Ourominas. O diretor da Correparti, Ricardo Gomes, endossa que “não vê” cenário de estresse amanhã. “Porém, é preciso acompanhar os assuntos hoje à noite”, ressalta.

O mercado deverá ficar atento também aos desdobramentos da saída do general Santos Cruz da Secretaria de Governo, somando o terceiro ministro a deixar o cargo em seis meses de governo de Jair Bolsonaro.

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