Bolsa sobe e dólar cai com aprovação do texto-base da reforma da Previdência

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa encerrou com alta de 1,56%, aos 103.636,17 pontos, renovando o recorde de fechamento batido no dia 24 de junho (102.062,33 pontos), diante da aprovação da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara dos Deputados. A aprovação do texto-base da reforma, por 36 a 13 votos, alimentou esperanças de investidores de que a proposta possa ser aprovada no plenário da Câmara antes do recesso parlamentar, que começa no dia 18 de julho.

Durante à tarde, o índice chegou a atingir a máxima histórica intradiária de 104.021,60 pontos. O volume total negociado foi de R$ 13,5 bilhões, considerado elevado para um dia de feriado nos Estados Unidos, quando a liquidez costuma ser reduzida.

A aprovação da reforma da comissão já era esperada e já estava sendo precificada pelo mercado. No entanto, o índice teve apenas uma leve desaceleração e não chegou a engatar um movimento de realização de lucros depois da confirmação da expectativa.

“Vejo a aprovação como uma vitória e há esse clima de euforia, mesmo que a Bolsa já tenha antecipado a votação e já tenha subido ontem. O mercado já está prevendo que pode passar também no Congresso e que pelo menos a votação no primeiro turno na Câmara pode ocorrer antes do recesso”, disse o gerente da mesa de operações da H.Commcor, Ari Santos.

Para o analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino, o fato de as bolsas norte-americanas estarem fechadas também ajudou com que prevalecesse o otimismo local e não houvesse uma realização. “O mercado está bastante comprador”, afirmou.

Ele também destaca que será preciso acompanhar agora a votação de destaques na comissão e possíveis alterações, como a inclusão de benefícios para algumas categorias, como a dos policiais. “A concessão de benefícios para uma categoria não é vista com bons olhos, daria força para outras classes também pedirem mudanças, mas acredito que isso será difícil de acontecer”, disse.

Entre as ações, papéis de peso como os do setor financeiro, com destaque para o Santander (SANB11 2,53%), Bradesco (BBDC4 1,98%) e B3 (B3SA3 3,41%), seguiram em alta e ajudaram a manter o Ibovespa nos 103 mil pontos, embora os ganhos tenham sido generalizados entre os setores hoje. 

Já as maiores valorizações do índice ficaram com as ações de companhias áreas, Gol (GOLL4 7,31%) e Azul (AZUL4 5,87%), e de varejistas, como Via Varejo (VVAR3 5,23%) e B2W (BTOW3 6,10%). Os papéis do setor de aviação já tinham registrado fortes altas ontem após recomendações positivas do Goldman Sachs e a Via Varejo têm subido fortemente em meio a expectativas de que nova gestão, com a família Klein voltando ao controle, promova mudanças que façam frente à concorrência. Já a B2W aproveita a onda positiva e recupera perdas recentes.

Na contramão, as maiores quedas foram da CVC (CVCB3 -1,11%), do Bradespar (BRAP4 -0,37%) e do IRB Brasil (IRBR3 -0,21%).

Amanhã, o destaque na agenda são os dados do mercado de trabalho norte-americano, conhecidos como payroll, que podem trazer mais dicas sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

Caso venham fora do esperado pelo mercado, o analista do Daycoval não descarta que a bolsa brasileira possa ter uma realização de lucros, embora destaque que o humor deve seguir positivo, com o índice já negociando em faixas mais elevadas e com novos suportes. “Se seguir nessa toada, os 100 mil poderiam ser o novo piso, que antes era por volta dos 95 mil pontos”, diz lembrando que são esperados outros fatores além da aprovação da reforma, como uma redução da taxa básica de juros (Selic).

Para Santos, o patamar atual também já atrai correções, embora seja difícil saber quando virão. “O índice chegou em um topo que não é ruim que tenha uma pequena realização. Nesses preços eu não compro mais, fico esperando”, afirmou.

O dólar comercial fechou em queda de 0,67% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8010 para venda, depois de romper o nível de R$ 3,80 e renovar mínimas a R$ 3,7850 (-1,10%) – menor valor desde o fechamento de 21 de março (R$ 3,7930) – influenciado pelo otimismo de investidores locais com a aprovação do texto-base da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara da Deputados. Em contrapartida, a sessão foi de baixa liquidez devido ao feriado nos Estados Unidos.

Aprovado com 36 votos a favor conta 13, o parecer da reforma ainda está em discussão na comissão especial, onde são analisados destaques que pedem mudanças no texto.

“Foi determinante para a manutenção do otimismo do investidor, que deu impulso ao mercado de ações e derrubou o dólar”, comenta o analista de uma corretora nacional. Ele acrescenta que “existe grande esforço” por parte do governo no intuito de manter o texto mais intacto possível. A projeção é que o atual texto deve promover uma economia em torno de R$ 1,0 trilhão em dez anos.

Apesar do otimismo, analistas do banco Fator ponderam que, o que era visto como a “salvação da lavoura”, a reforma da Previdência e seu cometido efeito sobre as expectativas da retomada do investido, se tornou condição necessária, mas não suficiente, para recuperar a trajetória de crescimento sustentada.

Amanhã, além da volta do mercado norte-americano, o foco dos investidores deverá se concentrar no relatório de empregos (payroll) dos Estados Unidos. Depois de dados mais fracos da pesquisa ADP, prévia do payroll, com a criação de 102 mil postos de trabalho no setor privado no mês passado ante expectativa de quase 140 mil vagas, o mercado aguarda números abaixo do esperado, o que sustenta as apostas de ciclo de corte de juros.

Para a equipe econômica do Bradesco, o ritmo menor do que o esperado da ADP sugere que o resultado do payroll poderá ser inferior à expectativa do mercado. O levantamento feito pelo Termômetro CMA projeta a criação de 169 mil novas vagas. “Caso isso se confirme, a probabilidade de o Fed [Federal Reserve, o banco central norte-americano] iniciar um ciclo de afrouxamento monetário na próxima reunião [dias 30 e 31] se torna ainda maior”, comenta.