Bolsa sobe e dólar cai após decisão do Fed em manter taxa de juros inalterada

Por Danielle Fonseca e Eduardo Puccioni

São Paulo – O Ibovespa encerrou em alta de 0,90%, aos 100.303,41 pontos, refletindo o bom humor que tomou conta dos mercados depois que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) confirmou as expectativas de que adotaria um tom mais expansionista (“dovish”), evidenciando um movimento mundial de bancos centrais afrouxando políticas monetárias e mantendo estímulos econômicos.

Com isso, o índice superou o recorde histórico de fechamento do dia 18 de março (99.993,92 pontos), além de se aproximar do recorde intradiário de 100.438,87 pontos do dia 19 de março, ao atingir a máxima de 100.327,15 pontos. O volume total negociado foi de R$ 15,7 bilhões.

“Ontem, o BCE já animou os mercados falando que pode flexibilizar sua política e hoje o Fed confirmou previsões. Ainda vamos ter a decisão do Copom, do banco central japonês e do banco central inglês”, afirmou o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira, destacando que os bancos centrais citados também podem fazer alterações ou sinalizar cortes de juros. No caso do Copom, que divulga sua decisão hoje às 18h, é esperada a manutenção da taxa de juros, mas que o comunicado abra a porta para algum corte já na reunião de julho.

O Fed manteve a taxa de juros na faixa entre 2,25% e 2,50%, mas retirou a referência a uma postura paciente nos futuros ajustes da taxa básica no comunicado e ressaltou que as incertezas aumentaram.

“Se os juros baixam é dinheiro barato. você toma dinheiro e vai para a Bolsa. Por mais que se tenha risco de recessão o cenário para O mercado é positivo e sempre tem uma antecipação”, disse o analista da Mirae Asset Corretora, Pedro Galdi.

Entre as ações, algumas que caíam mais cedo, passaram a subir com a decisão do Fed, caso dos papéis de bancos, que aceleraram ganhos, como os do Itaú Unibanco (ITUB4 1,58%). Já as maiores altas do Ibovespa foram das ações da Natura (NATU3 5,27%), da Rumo (RAIL3 3,70%) e da JBS (JBSS3 3,21%). Os papéis da Natura refletiram reportagem do jornal “Valor Econômico”, que afirmou que a empresa obteve decisão tributária favorável na Justiça.

Na contramão, as maiores quedas do índice foram da Smiles (SMLS3 -4,14%), da B3 (B3SA3 -1,89%) e da Ultrapar (UGPA3 -1,83%). As ações da Smiles refletiram a notícia que a empresa não chegou a um acordo com a Gol Linhas Aéreas quanto aos termos para implementação da reestruturação societária proposta.

Amanhã, o feriado no Brasil manterá mercados fechados, fazendo com que investidores repercutam a decisão do Copom apenas no pregão de sexta-feira. Para Bandeira, o pregão de sexta também pode abrir com um “gap” em relação ao exterior, que amanhã deve analisar melhor as decisões do Fed e demais bancos centrais, como do Japão e Inglaterra, que ocorrerão também entre hoje e amanhã.

O dólar comercial encerrou a sessão de hoje com queda de 0,25%, sendo negociado a R$ 3,8510 para venda. A moeda norte-americana passou a maior parte do dia em ligeira alta, mas passou a cair após o Fed anunciar a manutenção da taxa de juros no país. Mesmo invertendo o sinal de alta para queda, o recuo do dólar diante do real não foi tão expressivo, pois os investidores seguiram na defensiva.

“Primeiro temos um ajuste por causa do feriado amanhã no Brasil. Depois ainda temos um ambiente de guerra comercial e o Powell [Jerome, presidente do Fed] dizendo que fica no cargo até o final do mandato, mesmo com o Trump [Donald, presidente dos Estados Unidos] pressionando sua saída. Isso deixou o mercado muito na defensiva”, explicou Camila Abdelmalack, economista da CM Capital Markets.

Sobre a queda de braço entre a Casa Branca e o Fed, que parece longe de acabar, Powell fez questão durante a coletiva de hoje de defender a independência do banco central norte-americano e confirmou a intenção de cumprir seus quatro anos de mandato. “Eu acho que a lei é bem clara ao determinar que tenho um mandato de quatro anos. Minha intenção é cumpri-lo integralmente”, disse Powell.

Abdelmalack disse ainda que hoje é dia de decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) e o mercado aguarda uma sinalização sobre o balanço de risco para saber se seguirá simétrico ou ficará assimétrico. “Não estamos projetando corte de juros este ano, encerrando o ano a 6,5%”, afirmou. Porém, a especialista destaca que caso o Banco Central faça uma avaliação de inflação abaixo da meta e atividade econômica fraca, possa indicar um corte para a reunião de julho.

“Tudo ainda vai depender da aprovação da reforma da Previdência. Se tudo for aprovado antes do recesso, que começa no dia 18 de julho, podemos ter um corte nos juros. Mas tudo depende da avaliação que o Banco Central fará no comunicado de hoje”, afirmou a economista da CM Capital Markets.

Na avaliação de um diretor de tesouraria de um banco, o evento do Copom é uma situação ganha-ganha para o real. “Uma abordagem hawkish [conservadora] empurrará o dólar de volta para R$ 3,80, mas uma avaliação dovish [suave] é apenas uma desculpa para manter posições e dólar ficar em R$ 3,85. Esse será o grande desafio”, disse o diretor.  

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