Bolsa fica quase estável, com ligeira alta, e dólar cai com cenário político interno

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – Após chegar a cair mais de 1% ao longo do pregão, o Ibovespa passou a subir no final do dia e acabou encerrando praticamente estável, com alta de 0,03%, aos 100.723,97 pontos, com investidores digerindo uma série de declarações sobre a reforma da Previdência, em uma tentativa do governo de acalmar ânimos sobre possíveis atrasos no cronograma de votação. O volume total negociado foi de R$ 14,9 bilhões.

Para o sócio da Criteria Investimentos, Vitor Miziara, chamaram a atenção principalmente as falas do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que disse que o texto da reforma está bem encaminhado e pode ser votado na comissão especial na Câmara na semana que vem, para que seja aprovado no plenário da Casa antes do recesso parlamentar, que começa no dia 18 de julho. Inicialmente, a previsão era que o texto do relator fosse lido hoje na comissão especial, mas deputados do chamado “centrão” articularam para adiar a sessão por estarem descontes com alterações no projeto e com o governo.

“Havia o receio de a votação ficaria muito em cima do recesso e poderia não ser votada antes. As falas de Maia de ‘quem manda na pauta sou eu’ e que ‘será votado antes do recesso’ ajudam”, destacou Miziara.

Além de Maia, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, reiterou os esforços para que a reforma seja votada brevemente e possa incluir os Estados e municípios. Alcolumbre esteve reunido com o ministro da Economia, Paulo Guedes, que, por sua vez, ainda ressaltou que governo e Congresso estão trabalhando juntos na questão dos Estados. Guedes também afirmou que entre as medidas que estão sendo adotadas pelo governo para estimular a economia e o crédito está a redução dos depósitos compulsórios e que, no futuro, cerca de R$ 100 bilhões devem ser liberados no sistema financeiro.

O clima mais positivo em relação à articulação do governo em torno da reforma ajudou as ações de bancos a reduzirem perdas, com alguns papéis passando a subir, caso do Banco do Brasil (BBDC4 0,20%), que tem grande peso no Ibovespa. Já a maior alta do índice ficou com as ações do Pão de Açúcar (PCAR4 11,10%), que dispararam com investidores recebendo bem a notícia de uma reorganização societária do Casino, dono do Pão de Açúcar, na América Latina.

Na contramão, as ações da Petrobras (PETR3 -2,16%; PETR4 -1,59%) fecharam entre as maiores perdas. Segundo o responsável pela área de produtos da Monte Bravo, Rodrigo Frachini, os papéis sofreram mais hoje refletindo ajustes após a oferta de ações feita pela Caixa Econômica nesta semana, o que trouxe maior liquidez, e também sentiram correções nos preços do petróleo, após altas recentes. Além dos papéis da Petrobras, entre as maiores perdas do Ibovespa ficaram as ações da Braskem (BRKM5 -2,32%) e da Marfrig (MRFG3 -2,01%).

Já no cenário externo, o dia foi de espera pela reunião do G-20, que começa amanhã e quando os presidentes da China e dos Estados Unidos se encontrarão, podendo selar um acordo comercial, o que fez as bolsas norte-americanas operarem na sua maioria em leve alta.

Amanhã, último pregão do mês e do semestre, o Ibovespa pode sofrer alguns ajustes e investidores devem continuar observando o cenário político para que a reforma da Previdência possa ser votada ainda em julho na Câmara, além de acompanhar o início do G-20. “Amanhã vamos ver declarações do G-20 e podemos ter alguma pressão vindo de fora, o comportamento pode ser o mesmo dos últimos dois dias, com alguma volatilidade pontual”, disse Frachini.

Para ele, a semana que vem é a que deve ser mais decisiva, podendo ocorrer definições sobre um acordo entre China e Estados Unidos e a votação da reforma na comissão especial. No caso de nenhuma das questões serem resolvidas e da reforma atrasar mais prevê uma correção maior do Ibovespa no início de julho.

O dólar comercial fechou em queda de 0,36% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8340 para venda, em dia de oscilações no cenário local, influenciado por desdobramentos da reforma da Previdência, em meio à falas de líderes do Congresso. Na primeira parte dos negócios, a moeda refletiu o mau humor do mercado, renovando máximas a R$ 3,8740 (+0,67%) com o adiamento da leitura do parecer da reforma na comissão especial da Câmara dos Deputados para a próxima semana.

“Os temores de um maior atraso na tramitação da reforma da Previdência somados à ausência de notícias boas no exterior, foram suficientes para manter o dólar pressionado”, comenta o analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho.

No fim da manhã, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que a leitura do parecer do relator da reforma, Samuel Moreira (PSDB-SP), será na terça-feira e que estão trabalhando para a pauta ser votada em plenário antes do recesso parlamentar, que começa a partir de 18 de julho.

No meio da tarde, porém, o bom humor tomou conta do mercado com o dólar renovando mínimas a R$ 3,8280 (-0,52%) após as declarações do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP) junto ao ministro da Economia, Paulo Guedes. “A fala de que os governadores se comprometeram em incluir os estados e municípios trouxe uma renovada onda de otimismo”, diz o analista.

Na agenda de indicadores, o destaque foi o Relatório Trimestral de Inflação (RTI) divulgado pelo Banco Central (BC). Em entrevista à imprensa após a divulgação do documento, o presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto, destacou a importância da agenda de reformas para a recuperação da economia. “Ele afirmou que o cenário básico do BC é que reforma [da Previdência] será aprovada. Se não for, haverá sensibilidade contrária”, avalia a equipe econômica do banco Fator.

Os analistas que o presidente do BC reformou que a aprovação da reforma vai gerar “condições estimulativas” para a economia. “Cabe, portanto, cautela, na medida em que, segundo o Copom [Comitê de Política Monetária do BC], a taxa de juros já se encontra em terreno estimulativo”, ressaltam.  

Amanhã, último pregão do mês, tem a tradicional disputa pela formação de preço da taxa Ptax – média das cotações do dólar apuradas pelo Banco Central (BC) – de fim de mês. Segundo Ricardo, os vendidos “estão melhor” e devem “brigar” por uma taxa baixa nas primeiras horas do pregão. Além disso, o encontro do G-20 deve ficar no radar dos investidores em meio à expectativa para o encontro entre os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, no sábado, a respeito da guerra comercial entre os países.

“Os chineses pretendem apresentar alguns termos, entre eles, um pedido para que os norte-americanos removam a proibição à venda de tecnologia do país para a empresa chinesa [de telecomunicações] Huawei. E devem pedir a suspensão das tarifas impostas até o momento. Pode ocorrer uma eventual trégua para a continuidade das negociações e evitar uma nova rodada de aplicação de tarifas”, avalia o operador da Advanced, Alessandro Faganello.

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