Bolsa e dólar sobem com otimismo por trégua na guerra comercial; Previdência traz incertezas

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou o primeiro pregão de julho e do segundo semestre em alta de 0,36%, aos 101.339,68 pontos, refletindo o bom humor dos investidores após uma trégua entre China e Estados Unidos, que decidiram retomar negociações comerciais durante o G-20. No entanto, o índice, que chegou a máxima de 102,431,61 pontos, subindo mais de 1% pela manhã, reduziu ganhos em meio a um enfraquecimento dos preços do petróleo e cautela à espera da leitura do parecer da reforma da Previdência. O volume total negociado foi de R$ 14,7 bilhões.

Segundo o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira, índices de atividade industrial divulgados em vários países ainda vieram fracos e também ajudaram a conter a empolgação dos mercados no início do dia, assim como o enfraquecimento dos preços do petróleo.

No entanto, avalia que o cessar-fogo na relação comercial entre as duas potências, selado pelos presidentes Donald Trump e Xi Jinping durante o G-20 neste fim de semana, prevaleceu. “O quadro geral é bem melhor, tivemos uma grande sinalização com a não aplicação de tarifas a produtos chineses pelos americanos, é um respiro. Enquanto aqui com foco ainda é na votação da reforma na comissão especial, o mercado fica com essa dúvida”, disse o economista.

O otimismo com a retomada das negociações entre a China e os Estados Unidos impactaram positivamente os preços de commodities, o que fez com que as ações da Vale (VALE3 3,53%) e de siderúrgicas ficassem entre as maiores altas do Ibovespa.

As ações só não avançaram mais que os papéis de frigoríficos, como JBS (JBSS3 5,51%) e BRF (BRFS3 5,51%). As ações do setor já vinham subindo na esteira do bom humor externo, mas aceleraram ganhos após uma reportagem da agência de notícias “Reuters” afirmar que o impacto da gripe suína africana pode ser maior do que o esperado e noticiado pela China, o que deve demandar mais exportações e elevar preços de carnes.

Na contramão, porém, as ações da Petrobras (PETR3 -0,56%; PETR4 -0,40%) passaram a cair em meio a um enfraquecimento dos preços do petróleo, que após subirem mais de 3%, mostraram volatilidade com definições que estão sendo feitas pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) sobre cortes de produção. Os papéis de bancos também passaram a cair ao longo do dia, caso do Itaú Unibanco (ITUB4 -0,38%). A exceção do setor foram as ações do Santander (SANB11 1,18%), que subiram após o banco anunciar que reduzirá para 7,99% a taxa de juros para crédito imobiliário.

Já as maiores perdas do Ibovespa ficaram com as ações da Qualicorp (QUAL3 -3,31%), da Suzano (SUZB3 -3,90%) e da B2W (BTOW3 -3,33%).

Na cena doméstica, investidores seguem aguardando os próximos passos da reforma da Previdência, que pode ter seu parecer lido amanhã na comissão especial da Câmara dos Deputados, o que pode fazer com que seja votada em plenário antes do recesso parlamentar. No entanto, há dúvidas se o prazo será cumprido e se o texto trará alterações como a inclusão de Estados e municípios.

A leitura do parecer do relator da reforma deve ser o fator de maior importância para o pregão de amanhã. Caso se confirme, pode fazer com o Ibovespa tenha mais um dia positivo. “A depender do andamento da leitura do parecer amanhã na comissão, se o embate político der uma trégua, podemos ver a bolsa buscando o inédito nível de 105 mil pontos até quarta-feira”, disse o diretor da Ourominas, Mauriciano Cavalcante.

O dólar comercial fechou em leve alta de 0,10% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8450 para venda, depois de se manter em queda por quase toda sessão reagindo ao otimismo dos mercados globais na primeira parte dos negócios após a trégua na guerra comercial entre Estados Unidos e China. A revertida, porém, veio com correção no exterior e incertezas às vésperas da leitura do parecer da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara.

Na reta final dos negócios, o dólar à vista inverteu sinal e passou a registrar máximas consecutivas, chegando a R$ 3,8500 (+0,23%) depois de buscar os R$ 3,80 (R$ 3,8110, -0,78%). na primeira parte dos negócios. “Foi uma certa piora no exterior e aqui, os investidores aproveitaram a taxa baixa e foram às compras”, comenta o analista de câmbio da Correparti, Guilherme França.

Às vésperas da finalização da tramitação da reforma na comissão especial, investidores voltam a ter cautela à espera, por exemplo, se estados e municípios farão parte das mudanças previdenciárias. Para a equipe econômica da Guide Investimentos, amanhã, será um dia “chave” para o comportamento dos mercados, dado a possibilidade de a comissão especial aprovar o relatório das novas regras de aposentadoria.

“Julho pode trazer a aprovação da Previdência na Câmara, e nessa conjuntura, a redução da [taxa básica de juros] Selic, além da expectativa para redução da taxa de juros nos Estados Unidos, ambos no fim do mês”, reforçam os analistas.

Ainda sobre a reforma da Previdência, o analista da Toro Investimentos, Matheus Amaral, com possibilidade de a decisão sobre a matéria se prolongar até quarta-feira, poderemos observar “fortes oscilações” do dólar amanhã.

“A não ser que tenha alguma fagulha afirmando que a pauta será votada na comissão e encaminhada para o plenário da Câmara ainda nesta semana. Mas o mercado está em consenso de que avançara nos próximos dias e aí, o dólar pode ter uma queda menos intensa”, diz o analista apesar de apostas do mercado local de que a moeda estrangeira pode operar abaixo de R$ 3,80 após esses avanços.