Bolsa e dólar caem em dia de ajuste após aprovação do texto-base da reforma da Previdência

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São paulo – O Ibovespa fechou em queda de 0,63%, aos 105.146,44 pontos, interrompendo uma sequência de cinco pregões consecutivos de alta, com investidores aproveitando para embolsar lucros depois da aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara do Deputados. A possibilidade de votação de destaques, que podem trazer alterações e desidratações ao texto-base da reforma, também ajudaram no movimento de realização de lucros. O volume total negociado foi de R$ 16,9 bilhões.

Para o analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino, a aprovação da reforma, com placar acima do previsto e com economia significativa, foi muito positiva e mantêm tendência de alta da Bolsa. Porém, era natural que pudesse ocorrer alguma realização de lucros, com a máxima “sobe no boato e cai no fato” prevalecendo hoje. Ele também afirma que, agora, será preciso monitorar a votação dos destaques, que podem ser analisados ainda hoje pelos deputados, para depois o projeto ser votado em segundo turno.

“A votação dos destaques acaba preocupando, o mercado tem medo da incerteza de curto prazo e isso pode não ter uma solução rápida hoje”, disse. Entre os diversos destaques, há expectativa de que possam ser aprovados os que propõe mudanças nas regras de aposentadorias de mulheres e nas de policiais.

O economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira, porém, acredita que uma desidratação maior do projeto “é pouco provável” e destaca que o mercado já começa a olhar para possíveis medidas que o governo pode tomar para estimular a economia pós-reforma.

Bandeira também afirma que o cenário externo tem se mantido favorável com expectativas de afrouxamento de políticas monetárias, apesar de dados de inflação nos Estados Unidos terem vindo levemente acima do esperado hoje.

Entre as ações, as de bancos ficaram entre as que mais mostraram realizações de lucros e pesaram para a queda do índice, caso dos papéis do Bradesco (BBDC4 -0,84%) e do Banco do Brasil (BBAS3 -1,95%). Já as maiores quedas do índice ficaram com as ações do IRB Brasil (IRBR3 -5,20%), da Kroton (KROT3 -4,14%) e da JBS (JBSS3 -4,30%).

Na contramão, as maiores altas do Ibovespa ficaram com os papéis da Sabesp (SBSP3 4,67%), que refletiram declarações do governador do Estado de São Paulo, João Dória, que de que privatização da empresa é a melhor opção. As ações da Eletrobras (ELET3 7,36%; ELET6 4,83%) também ficaram entre as maiores altas em meio a expectativas sobre a capitalização da estatal.

Amanhã, investidores devem continuar repercutindo a votação de destaques da reforma da Previdência e de olho em quando pode ocorrer a votação no segundo turno, com expectativa de que ocorra antes do recesso parlamentar. No exterior, atenção para os dados da balança comercial chinesa e do índice de preços ao produtor norte-americano.

O dólar comercial fechou em queda de 0,18% no mercado à vista, cotado a R$ 3,7520 para venda – na quarta queda seguida e no menor nível desde o fim de fevereiro – reagindo à aprovação do texto-base da reforma da Previdência ontem no plenário da Câmara dos Deputados. Apesar da votação expressiva (379 votos favoráveis contra 131), incertezas ainda rondam investidores que seguem atentos aos próximos passos da tramitação, com a análise dos destaques do texto e à espera da votação em segundo turno no plenário.

“A moeda exibiu um viés de cautela em meio aos riscos de desidratação [do texto] da reforma da Previdência. Agentes do mercado recompuseram posições defensivas para grandes negócios, após a moeda registrar mínimas do dia [a R$ 3,7350, -0,64%]”, comenta o diretor da Correparti, Jefferson Rugik.

Lá fora, a moeda norte-americana passou a recuperar valor e operou menos “desvalorizada” diante das moedas pares e de países emergentes após números acima do esperado da inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês).

Amanhã, com a agenda de indicadores mais fraca, o foco do mercado deverá seguir na reforma da Previdência. “A gente deve ter uma leitura mais clara sobre o cenário para a votação em segundo turno quando a Câmara deverá ter votado parte ou todos os destaques”, diz o diretor de uma corretora nacional.

O analista da Quantitas, Matheus Gallina, porém, destaca que o cenário internacional também fica no radar, em meio apostas do mercado de que o banco central norte-americano, Federal Reserve (Fed) vá cortar ou não a taxa de juros dos Estados Unidos no fim deste mês e qual a magnitude do corte.