Bolsa e dólar caem com realização de lucros e espera por aprovação de destaques da Previdência

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa encerrou em baixa pelo segundo pregão seguido, com perdas de 1,17%, aos 103.905,99 pontos, mostrando uma aceleração da queda no fim do pregão com uma realização de lucros puxada por incertezas em relação aos próximos passos da reforma da Previdência. Os deputados seguem analisando destaques e aprovando novas alterações ao texto-base da reforma, o que pode fazer com que a votação em segundo turno ocorra apenas após o recesso parlamentar, em agosto. O volume total negociado foi de R$ 17,5 bilhões.

No fim da tarde, foi aprovada a redução da idade mínima de professores, sendo que ontem já haviam sido aprovados três destaques. As mudanças trarão uma redução da economia trazido pelo projeto, embora a previsão seja que a reforma ainda se mantenha robusta. Sem o encerramento da análise dos destaques, porém, a votação em segundo turno pode ficar para depois.

“Os destaques ainda estão sendo votados, isso se vão conseguir votar hoje, sendo que ainda tem o segundo turno para votar”, disse o sócio da DNAInvest, Leonardo Ramos, que acreditava que o índice pudesse acelerar perdas com a espera por uma definição e também diante das fortes altas nos últimos dias. No início da semana, o Ibovespa chegou a renovar recordes históricos, mas com queda dos últimos dois pregões e feriado na terça-feira, caiu 0,17% na semana.

Ramos ainda destacou que a próxima segunda-feira é dia de vencimento de opções sobre ações, o que também costuma trazer volatilidade, com investidores ajustando posições.

O chefe de renda variável da Eleven Financial Research, Carlos Daltozo, concorda que investidores aproveitaram para embolsar lucros e destaca que, além do andamento da reforma, o mercado começará a ficar de olho em outras medidas que possam ser tomadas pelo governo. “O mercado espera o encaminhamento de outras reformas, principalmente a tributária. A Previdência terá um impacto para daqui a 10 anos, a tributária teria impacto mais imediato. As pessoas querem ver o crescimento da economia real também”, afirmou. Hoje, o ministério da Economia reviu para baixo a previsão de alta do PIB em 2019, que caiu de 1,6% para 0,81%.

Entre as ações que mostraram maior realização de lucros ficaram as do setor financeiro, como do Itaú Unibanco (ITUB4 -2,01%) e da B3 (B3SA3 -3,06%), que também ficou entre as maiores perdas do Ibovespa. Ao lado da B3, apareceram as ações da Raia Drogasil (RADL3 -4,21%) e da BEW (BTOW3 -3,24%). Na contramão, as maiores altas foram da Suzano (SUZB3 3,06%), da CCR (CCRO3 2,73%) e da Eletrobras (ELET3 1,27%; ELET6 1,10%).

Na semana que vem, o vencimento de opções pode trazer volatilidade e investidores continuarão a repercutir a votação dos destaques da Previdência, analisando possíveis desidratações acima do esperado. O início do recesso parlamentar no dia 18 de julho, porém, deve começar a esvaziar o noticiário político. Já no cenário externo, serão observados os indicadores de atividade principalmente dos Estados Unidos, para calibrar expectativas de possíveis cortes de juros.

O dólar comercial fechou a sessão em queda de 0,34% no mercado à vista, cotado a R$ 3,7390 para venda, e cai 2,14% na semana marcada pela aprovação do texto-base da reforma da Previdência no plenário da Câmara dos Deputados, refletindo a euforia do mercado após 379 parlamentares serem favoráveis à reforma (contra 131 votos).

“Além de acompanhar o cenário externo positivo, com a crescente aposta em corte de juros nos Estados Unidos, aqui, investidores seguem otimistas e acreditam que, mesmo votando o texto da Previdência em segundo turno só em agosto, ela deverá ser robusta”, comenta o operador de câmbio da Correparti, Guilherme Esquelbek.

O otimismo com a reforma levou o dólar aos menores níveis desde o fim de fevereiro, voltando a operar abaixo de R$ 3,75. Além da Previdência, o exterior também ajudou com o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, sinalizando, em tom mais “dovish”, de que haverá corte de juros em breve nos Estados Unidos.

Para a equipe econômica do Itaú, há justificativa para um corte preventivo do Fed na taxa de juros no fim deste mês, da ordem de 0,25 ponto percentual (pp).

“Dessa forma, o Fed garantiria aos investidores que está monitorando a situação de perto e que vai agir adequadamente para sustentar a expansão econômica, enquanto incertezas globais e comerciais, além do problema fiscal, continuam sendo riscos relevantes para a perspectiva econômica para 2020”, avalia.

Apesar da euforia de investidores locais também no mercado de ações, a economista-chefe do banco Ourinvest, Fernanda Consorte, pondera que na próxima semana, o dólar deverá, gradualmente, buscar o nível de R$ 3,80. “O real pode sim mostrar uma desvalorização, caminhando devagarzinho para tal nível com a ausência de notícias, um pouco de correção e proteção ao compasso que a questão da Previdência pode não se resolver totalmente na próxima semana na Câmara”, diz.

Na próxima semana, as atenções do deverão seguir na tramitação da reforma da Previdência, com possível votação da proposta em segundo turno no plenário da Câmara. A expectativa é de que a votação ocorrera antes do recesso parlamentar, a partir de quinta-feira. Porém, Fernanda ressalta que, mesmo que a votação fique para agosto, volta dos parlamentares ao Congresso, o mercado não deverá precificar o “atraso” no andamento da reforma.

Com a agenda de indicadores mais forte no exterior, os analistas do Bradesco chamam a atenção para os dados do Produto Interno Bruto (PIB) da China que deverá crescer levemente acima de 6% no segundo trimestre do ano. “O que será importante para demandar novos estímulos econômicos”, comentam. Além disso, dados da atividade industrial nos Estados Unidos serão divulgados ao longo da semana.