Bolsa deve bater marca de 1 milhão de investidores pessoa física

Por Danielle Fonseca

São Paulo – O número de investidores pessoa física em Bolsa deve continuar a acelerar e pode superar a marca inédita de 1 milhão já em maio, quase dobrando nos últimos dez anos, de acordo com previsões da própria B3. A avaliação de agentes do mercado é que a perspectiva de uma taxa de juros mais baixa por mais tempo, aliada à possibilidade de aprovação de reformas como a da Previdência e à modernização de corretoras, têm feito investidores a se arriscarem mais em renda variável.

(Foto: Luiz Prado / LUZ)

Segundo dados da B3, ao final de 2018, os investidores pessoa física em Bolsa chegaram a 982,7 mil, um crescimento de 193,6 mil pessoas ou 31,26% em relação a 2017, depois de já registrar três anos seguidos de alta e recordes. No entanto, a perspectiva é que possa ocorrer um crescimento em ritmo até mais acelerado daqui para frente, já que só nos três primeiros meses de 2019, houve um aumento de 169,4 mil investidores, chegando a 982,7 mil ao final de março.

“Estamos indo rumo a 1 milhão de investidores pessoa física e não me
espantaria se em maio isso já ocorra. As pessoas estão saindo da zona de conforto e procurando alternativas de investimento, já que aquele rendimento alto em renda fixa já não ocorre”, disse o Diretor de Relacionamento com Clientes Brasil da B3, Felipe Paiva, em entrevista à Agência CMA.

Na visão do diretor, o cenário é diferente agora do que em outros períodos em que houve um movimento de crescimento de investimentos em renda variável, como em 2007, já que “o Brasil nunca viveu um período tão grande de juros mais baixos”. No mês passado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) manteve a taxa básica de juros, a Selic, em 6,50% ao ano. Trata-se da oitava vez seguida que a taxa, que já está em seu piso histórico, é mantida. O mercado financeiro também prevê que a Selic permaneça nesse nível até o fim do ano e que a taxa se mantenha em um dígito pelo menos até 2022, de acordo com o relatório Focus do BC.

Segundo Paiva, o perfil do investidor que está entrando na Bolsa agora também tem mudando aos poucos. São investidores mais jovens, que estão menos presos à cultura brasileira de manter recursos em poupança e que buscam mais informações sobre renda variável, usando outros meios como a Internet. “É um cara mais antenado, que já é do mundo digital, segue influenciadores, com os quais pode falar de igual para igual”, disse, acrescentando que as corretoras perceberam esses movimentos e têm melhorado a sua comunicação com o investidores pessoa física, usando uma linguagem mais simples e mais plataformas digitais.

Para o economista da Órama Investimentos e professor do Ibmec, Alexandre Espírito Santo, esse perfil que busca mais informações também pode minimizar os riscos do investimento em Bolsa e ajudar a manter esses investidores por mais tempo em renda variável, sem que se assustem com a volatilidade de curto prazo do mercado. “Alguns ex-alunos têm me procurado para conversar sobre investimento em Bolsa e sentimos esse movimento na Órama, embora a maioria ainda invista em renda fixa”, disse.

No entanto, também alerta para os riscos do mercado e volatilidade que ainda pode ocorrer este ano em função do andamento da reforma da Previdência,sendo que o Ibovespa não conseguiu manter o nível recorde de mais de 100 mil pontos atingido em março, apesar estar se mantendo acima dos 90 mil, em um novo patamar.

A possibilidade de aprovação da reforma da Previdência ainda poderia levar mais empresas a abrirem capital, já que há expectativa de que possa atrair investimentos. Historicamente, o maior número de oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) também ajuda a atrair investidores pessoa física. “Já anunciamos de que 20 a 30 empresas poderiam vir para Bolsa nessa expectativa da reforma da Previdência”, disse o diretor da B3.

A Rico Investimentos é outra que aposta nessa comunicação mais simples e no crescimento do interesse de pessoas físicas em investir em Bolsa. Segundo o Head da Rico Investimentos e sócio do Grupo XP, Pedro Boesel, o número de investidores pessoa física em renda variável deve dobrar dentro da corretora este ano em relação ao ano passado, depois de já ter crescido 35% de janeiro a março.

“Temos 350 mil clientes ativos na Rico, sendo que 185 mil em renda variável, sendo 115 mil investindo em ações e 70 mil investindo em fundos imobiliários. Ou seja, cerca de 50% de nossos clientes já possuem exposição em ativos de renda variável”, disse. Segundo Boesel, o crescimento se deve principalmente à migração de investidores de renda fixa e de outros tipos de produtos para renda variável, mas também há investidores novos, já entrando em Bolsa.