Bolsa desacelera ganhos, mas fecha em alta após volta da guerra comercial; dólar sobe

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em alta de 0,30%, aos 102.125,94 pontos, desacelerando fortemente os ganhos depois que o presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que irá aplicar novas tarifas aos produtos chineses. A notícia azedou o humor dos investidores no exterior, fazendo as bolsas norte-americanas passarem a cair e os preços do petróleo a recuarem mais de 7%.

Mais cedo, o Ibovespa tinha atingido a máxima de 104.055,69 pontos, subindo mais de 2% impulsionado pelo corte da Selic e sinalizações de que mais cortes devem ser feitos à frente, o que foi sentido principalmente pelas ações dos setores de varejo e consumo. O volume negociado foi de R$ 27,1 bilhões, considerado elevado por analistas.

“Estava tudo indo muito bem até que essa fala do Trump realmente azedou o humor, os mercados reverteram de uma hora para a outra. A Petrobras passou a cair e a Vale já estava pesando, mas a segunda linha, ações como Via Varejo, Gol, continuaram firmes”, disse o economista da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo.

Trump afirmou que vai iniciar, a partir do dia 1 de setembro, a aplicação de tarifas de 10% sobre os US$ 300 bilhões em produtos remanescentes importados da China, dias após representantes comerciais norte-americanos terem viajado a Xangai para retomar as negociações comerciais, o que surpreendeu investidores. Após o fechamento dos mercados, o presidente ainda disse que as tarifas podem ser elevadas para até 25%.

As declarações fizeram os preços do petróleo acelerarem perdas, o que foi sentido pelos papéis da Petrobras PETR3 -1,52%. PETR4 -1,76%). As maiores perdas do Ibovespa, porém, ficaram com as ações do IRB Brasil (IRBR3 -3,34%), Bradespar (BRAP4 -3,07%), Usiminas (USIM5 -2,86%) e Vale (VALE3 -2,83%). As ações da Vale já estavam entre as maiores quedas mais cedo após um balanço mais fraco que o esperado.

Na contramão, as ações de empresas de varejo e consumo tiveram um dia positivo puxadas pelo corte da Selic ontem, caso das ações da Via Varejo (VVAR3 6,22%), que ficaram entre as maiores altas.

“A queda de 0,50 pp da Selic não era tão esperada assim e acabou surpreendendo junto com as sinalizações de possíveis novos cortes dadas pelo Copom. Isso dá o impulso que a Bolsa estava precisando depois de vários dias parada e é sentido diretamente pelos setores imobiliário, de consumo e varejo”, afirmou o especialista em investimentos da Levante Investimentos, Felipe Bevilacqua.

No entanto, as ações das varejistas ficaram atrás dos papéis da Cielo (CIEL3 13,12%), que dispararam no fim do pregão e fecharam na maior alta após a notícia da “Colune do Broadcast”, da Agência Estado, de que o Banco do brasil estuda vender a fatia de 28,65% na companhia, que controla junto com o Bradesco. A fatia vale hoje R$ 5,65 bilhões. Também ficaram entre os maiores ganhos as ações da Eletrobras (ELET3 6,91%; ELET6 5,68%), que refletiram notícias de que o presidente da estatal discutirá com o presidente Jair Bolsonaro a privatização da companhia.

Amanhã, o Ibovespa pode continuar a refletir as falas de Trump e o humor do mercado externo, porém, o economista da Órama acredita que o corte da Selic e a expectativa de juros ainda mais baixos no Brasil, pode manter o tom mais otimista no mercado interno. “Para que se reverta a tendência de alta teria que ocorrer alguma coisa realmente grave no exterior, termos um fato concreto e não apenas afirmações por enquanto”, afirmou.

O dólar comercial fechou em alta de 0,78% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8480 para venda, acumulando quatro altas seguidas, em reação ao anúncio do presidente norte-americano, Donald Trump, à tarde de que aplicará, tarifas de 10% sobre US$ 300 bilhões em produtos da China a partir do mês que vem. Investidores ainda reagiam à decisão dos bancos centrais ontem.

“A guerra comercial entre os Estados Unidos e China ganhou novo capítulo hoje e atinge outros produtos que ainda não haviam sido alcançados por medidas anteriores”, comenta o diretor da Correparti, Ricardo Gomes.

A reação foi globalmente negativa e afetou as moedas de países emergentes e ligadas às commodities que acompanharam a forte desvalorização do petróleo WTI, em que os preços dos contratos futuros registraram quedas de mais de 7%, acima de US$ 54,00 o barril.

Para Gomes, agosto começa com uma tendência de alta pelos próximos dias, em meio às questões externas e principalmente, com a volta das atividades parlamentares no Congresso Nacional na semana que vem. “Até definir os próximos passos da reforma da Previdência e discutir outras reformas, o dólar deverá ficar pressionada. Mas o fluxo poderá ser um contraponto”, diz.

O economista de uma corretora nacional acrescenta que o dólar deverá performar conforme o andamento da agenda de reformas no Congresso ao longo do mês, “além das relações políticas”, diz. Já o operador de câmbio da Advanced, Alessandro Faganello, ressalta que, apesar do peso do exterior nos últimos dias, a volta da discussão em torno da Previdência e da reforma tributária deve tirar um pouco do foco no exterior. “Os olhos vão voltar para a política”, diz.

Amanhã, na agenda de indicadores, tem o principal dado da semana, o relatório de emprego dos Estados Unidos, o payroll. Segundo Faganello, a tendência é de que os números “sejam bons”, acompanhando a prévia divulgada ontem pela ADP. Apesar do foco ser a renda do trabalhador norte-americano no mês passado, os dados podem reforçar a leitura de que a taxa de juros nos Estados Unidos continuará sendo monitorada e “pode” ter um novo corte no ano.

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