Bolsa cai quase 3% e dólar sobe a R$ 4,04 com tensão sobre crescimento econômico mundial

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São paulo – O Ibovespa fechou em queda de 2,94%, aos 100.258,01 pontos, – na maior queda percentual desde o dia 27 de março (-3,57%) – com um aumento dos temores de uma desaceleração da economia global após dados mais fracos da China e da Alemanha, o que fez bolsas norte-americanas caírem mais de 3% e derrubou preços de commodities.

O humor do mercado azedou ainda mais após a inversão da curva de juros norte-americana, o que sinaliza uma recessão à frente e fez o Ibovespa voltar a chegar a cair abaixo dos 100 mil pontos na mínima do dia (99.954,75 pontos), testando um importante patamar. O volume total negociado foi de R$ 41,6 bilhões, potencializado pelo vencimento de opções sobre o Ibovespa.

“Essa inversão da curva de juros, do título de dois anos com o de 10 anos, é um sinal de pré-crise, de alerta, e faz investidores fugirem da renda variável. A manhã já era bem mal-humorada com indicadores fracos na China. Além disso, é vencimento de opções de índice, então o volume é maior”, afirmou o analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino.

Pela primeira vez desde a crise financeira, os juros dos títulos norte-americanos de dez anos renderam menos do que os juros da nota de dois anos. Essa anomalia é conhecida como “inversão da curva de juros” e é vista como um indicador de recessão. Já na China, dados da produção industrial e das vendas no varejo mostraram crescimento abaixo do esperado pelo mercado, evidenciando possíveis impactos da guerra comercial. O PIB da Alemanha também decepcionou, ao cair 0,1% no segundo trimestre frente ao trimestre anterior.

O diretor de operações da Mirae Asset Corretora, Pablo Spyer, também destacou a inversão da curva de juros, mas cita ainda a fala do presidente norte-americano Donald Trump, que voltou a criticar o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), o que na sua avaliação pode trazer mais desconforto em meio a mercados já sensíveis. No final da tarde, Trump disse que o problema da economia norte-americana não é a guerra comercial com a China e sim a demora do Fed em cortar juros, voltando a fazer duras críticas ao presidente do Fed, Jerome Powell, que chamou de “sem noção”.

O medo de recessão nos Estados Unidos afeta também os preços de commodities, com os contratos de petróleo fechando com queda mais de 3%, o que refletiu nas ações da Petrobras (PETR3 -3,07%; PETR4 -3,37%). As ações da Vale (VALE3 -3,48%) e de siderúrgicas, como CSN (CSNA3 -4,13%), também sofreram o impacto da piora externa.

Já as maiores quedas do Ibovespa foram das ações da Kroton (KROT3 -11,55%), da Cosan (CSAN3 -5,45%) e da Embraer (EMBR3 -5,85%), que refletiram seus balanços trimestrais. Os papéis da Eletrobras (ELET3 -5,69%) também fecharam entre as maiores baixas. Ontem, o o presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior, disse que o processo de privatização da Eletrobras deve ocorrer por meio de uma Medida Provisória (MP), que será formulada pelos Ministérios da Economia e de Minas e Energia.

Amanhã, analistas acreditam que investidores ainda podem continuar a adotar posturas mais defensivas em função do receio de desaceleração global, embora não na mesma magnitude de hoje. Na agenda de indicadores, uma série de dados norte-americanos deve ser observado em busca de sinais de desaceleração, entre eles, os pedidos de seguro-desemprego, produção industrial e vendas no varejo.

Para o analista do banco Daycoval, ainda é cedo para dizer que os mercados acionários podem iniciar uma correção maior, o que levaria o Ibovespa voltar a ser negociado abaixo dos 100 mil pontos. “Os 99 mil são um ponto importante de suporte, mas fechando nesses níveis ainda vejo oportunidade de compra, não acho que muda uma visão mais otimista de longo prazo”, afirmou. Já o diretor da Mirae, não descarta que o Ibovespa possa cair mais diante de uma piora no cenário externo. “Há chances de virem dias piores, mesmo que o solavanco de hoje não se repita, podemos ver algumas realizações de lucros”, afirmou.

O dólar comercial fechou em forte alta de 1,78% no mercado à vista, cotado a R$ 4,0410 para venda – pela primeira vez acima do nível de R$ 4,00 desde 28 de maio, quando fechou em R$ 4,0240 – refletindo o mau humor do mercado com os sinais de desaceleração da economia global e de uma possível recessão nos Estados Unidos. Os dados da economia da China e o comportamento da curva de juros norte-americana preocuparam investidores ao longo da sessão.

“A bateria ruim de indicadores tanto de China quanto na Europa foi suficiente para que o humor dos mercados azedasse novamente. Além disso, o investidor prossegue na corda bamba em relação à guerra comercial [entre Estados Unidos e China], sendo que a qualquer momento uma nova mensagem no Twitter de Trump [Donald, presidente norte-americano] pode mudar completamente o sentimento dos investidores”, comenta o analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho.

Ele reforça a inversão da curva principal dos títulos de dívidas do governo norte-americano, as treasures, na primeira parte dos negócios. “Esse fato aconteceu diversas vezes antes de recessões econômicas nos Estados Unidos”, lembra.

Amanhã, com agenda de indicadores mais forte nos Estados Unidos, os dados da atividade industrial e de vendas no varejo, em julho, podem fortalecer a alta da moeda com a sustentação da “ideia” de que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) poderá “jogar para frente” mais cortes da taxa básica de juros, avalia o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa.

Ele ressalta, porém, que a China pode anunciar medidas de estímulo após dados mais fracos da economia do país, “dando mais alívio às moedas, principalmente, emergentes. De qualquer forma, há espaço para corrigir. Porém, os ativos locais estão muito reféns dos eventos externos, agora, alimentado pela Argentina”, comenta.

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