Bolsa cai quase 2% com intervenção do governo na política de preços da Petrobras

Por Eduardo Puccioni, Flavya Pereira e Wilian Miron

São Paulo – A interferência do governo na política de preços da Petrobras fez as ações da estatal caírem mais de 7% na sessão de hoje, puxando o Ibovespa para uma queda de 1,98% aos 92.875,00 pontos, com volume financeiro de R$ 21,2 bilhões. Siderúrgicas evitaram uma queda maior dó índice. O efeito foi percebido também nas ações do Banco do Brasil, que recuaram mais de 3%.

“Hoje foi basicamente Petrobras, com siderúrgicas aliviando. Mas Petrobras é o grande fator negativo. Mercado ainda tem medo da interferência política na estatal, e em relação à política de preços que foi a grande vitória do Parente [Pedro, ex-presidente da Petrobras] na gestão e que foi o que fez a empresa retomar share e rentabilidade”, afirmou Rafael Passos, analista da Guide.

“O mercado vai ficar mais atendo à Petrobras. Adiciona fator de risco mais forte na tese de investimentos da companhia. Investidores aguardarão novidades”, acrescentou o especialista da Guide. A ação ordinária da Petrobras recuou 8,54%, enquanto a ação preferencial (PETR4) caiu 7,75%. O papel ON do Banco do Brasil encerrou com queda de 3,17%.

Mais cedo, Bolsonaro disse que a Petrobras terá de convencê-lo sobre a necessidade do reajuste no preço do diesel e que os caminhoneiros precisam ser tratados com carinho. A fale veio após a companhia ter anunciado ontem um reajuste de 5,7% no preço do diesel, que foi cancelado hoje em comunicado divulgado pela manhã.

O vice-presidente Hamilton Mourão considera que a pressão do governo federal sobre a Petrobras para a companhia desistir de elevar o preço do diesel é pontual e confia que o presidente Jair Bolsonaro não adotará um controle de preços de combustíveis.

“Só Petrobras e Banco do Brasil pressionaram hoje. Empresas ligadas ao governo caíram forte porque investidores estão associando o pedido do Bolsonaro a uma intervenção. Mas temos que pensar que uma greve dos caminhoneiros seria bem pior”, explicou Ari Santos, gerente da mesa de operações da H. Commcor.

No campo positivo e evitando uma queda ainda maior do índice, as ações ordinárias da CSN (CSNA3) subiram 3,46%. Já fora do Ibovespa, mas com destaque positivo também, o papel ON da Usiminas (USIM3) avançou 1,99% e a ação ON da Gerdau subiu 1,54%.

O dólar fechou em alta de 0,85% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8900 para venda, em dia conturbado na política local com notícias envolvendo o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, com suspeita de ter recebido propinas. Declarações do presidente Jair Bolsonaro estressaram os ativos locais, o que levou a moeda estrangeira a renovar máximas sendo negociado acima de R$ 3,90. Na semana, o dólar registrou alta de 0,43%.

Para o diretor de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik, um conjunto de fatores internos formaram a chamada “tempestade perfeita”, e foram “responsáveis pelo estresse do dólar”, diz. Na abertura dos negócios, os investidores já reagiam às notícias envolvendo o nome de Maia, que teria recebido R$ 1,4 milhão em propinas.

“Em tese, o efeito Maia não deveria fazer preço, mas nosso mercado é tão vulnerável com esses ‘vai e vem’ que começa a precificar possíveis atrasos na [tramitação] da Previdência”, comenta o diretor de uma corretora nacional. Já na segunda parte dos negócios, as declarações de Bolsonaro, afirmando que pediu o adiamento do reajuste de 5,7% no preço do diesel, contaminaram ainda mais o mercado local levando o dólar a renovar máximas.

Para Rugik, o receio por parte dos investidores com temor de “ingerência política” na Petrobras e o crescimento do sentimento da inexistência de articulação política no Planalto, foram os principais indutores para o forte nervosismo da moeda norte-americana.

Na semana que vem, a agenda de indicadores no exterior estará concentrada em dados de atividade da China, incluindo o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, além de indicadores dos Estados Unidos. “Devemos monitorar a intensidade da desaceleração do primeiro trimestre e os vetores que podem levar à estabilização no trimestre corrente. Na China, em especial, investimentos em infraestrutura precisam ter acelerado em março”, comenta a equipe econômica do Bradesco.

Aqui, o foco fica com a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) que deverá votar o parecer da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da reforma da Previdência, além da PEC do orçamento impositivo. “A votação do parecer da Previdência não é um ponto de alívio, mas o mercado continua com expectativa majoritária de o texto do relator [Marcelo Freitas] passar”, comenta o economista de uma consultoria.

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