Bolsa cai mais de 2% e dólar vai a R$ 3,95 com guerra comercial entre EUA e China

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa encerrou em queda de 2,50%, aos 100.097,75 pontos, refletindo o recrudescimento da tensão comercial entre China e Estados Unidos, que levou à busca por proteção e derrubou mercados acionários do mundo inteiro. Com isso, o índice encerrou no menor patamar desde o dia 25 de junho (100.092,95 pontos), embora tenha conseguido fechar acima dos 100 mil pontos depois de ter chegado a mínima de 99.630,09 pontos mais cedo. O volume total negociado foi de R$ 19,2 bilhões.

“Após a China e Estados Unidos terem retomado negociações no início da semana passada, voltamos à estaca zero com Trump ameaçando novas tarifas e as tensões se elevaram muito rápido. O mercado não vê solução à frente e acredito que pode piorar”, disse o economista da Guide Investimentos, Victor Beyruti.

O movimentou global de aversão ao risco tomou conta dos mercados hoje diante de retaliações da China após os Estados Unidos ameaçarem impor tarifas a produtos chineses na semana passada, o que fez os índices norte-americanos fecharam em baixa de cerca de 3%. A moeda chinesa também recuou para além do nível psicológico importante de 7 iunes por dólar. O enfraquecimento do iune é visto pelos Estados Unidos como uma retaliação e tentativa de a China manter as suas exportações mais baratas e competitivas. Em resposta, o presidente norte-americano, Donald Trump, acusou a China de manipulação da sua moeda nesta manhã.

Além disso, as empresas chinesas suspenderam a compra de produtos agrícolas dos Estados Unidos e o Conselho de Estado da China não descarta aplicar tarifas a estes produtos, disse o Ministério do Comércio chinês, em comunicado.

Entre as maiores perdas do Ibovespa ficaram as ações ligadas à commodities, como as Vale (VALE3 -3,85%) e CSN (CSNA3 -5,99%), que refletiram as perdas de mais de 6% dos preços do minério de ferro. O dia também foi negativo para os papéis da Petrobras (PETR4 -3,66%), com os preços do petróleo caindo mais de 1%. Ainda entre as maiores perdas do índice ficaram as ações da Kroton (KROT3 -4,98%) e da B2W (BTOW3 -4,85%), que devolveram ganhos anteriores.

Amanhã, investidores devem continuar acompanhando possíveis retaliações e desdobramentos da guerra comercial, além de observarem a volta do Congresso depois do recesso de julho, com a reforma da Previdência podendo ser votada no segundo turno, na Câmara dos Deputados, ainda nesta semana. Na agenda, atenção à ata do Comitê de Política Monetária (Copom), que pode confirmar sinalizações de mais quedas de juros à frente.

“O clima pode melhorar durante a semana, com a votação da Previdência no segundo turno, mas será preciso ver se há risco político, como o Congresso vai lidar com a declarações polêmicas do presidente Jair Bolsonaro recentemente”, alertou o analista da Toro Investimentos, Thiago Tavares.

O dólar comercial fechou em alta de 1,61% no mercado à vista, cotado a R$ 3,9560 para venda – na sexta alta consecutiva e no maior fechamento desde 30 de maio quando encerrou os negócios a R$ 3,9800 – reagindo ao acirramento dos conflitos comerciais entre Estados Unidos e China com retaliações do país asiático e declarações do presidente norte-americano, Donald Trump.

O diretor de câmbio de uma corretora nacional destaca “um forte sentimento” de aversão ao risco motivado pelos novos sinais de piora nas relações comerciais entre norte-americanos e chineses que pode se estender para uma guerra cambial. Após o governo chinês desvalorizar a moeda chinesa para além do nível-chave de 7 iuanes por dólar, Trump acusou o país asiático de “manipulação de moeda”.

“Em um momento de desaceleração da economia global, a China depreciar sua moeda, ao mesmo tempo em que barateia seu produto no exterior, prejudica empresas exportadoras, sobretudo de commodities. Empresas com forte dependência de vendas para a China, acabam por receber menos receita a partir do momento em que o iuane se enfraquece”, avalia o operador de câmbio da corretora Advanced, Alessandro Faganello.

Hoje, houve uma forte corrida global por ouro, segundo o diretor de câmbio do grupo Ourominas, Mauriciano Cavalcante, o que levou a commodity a fechar na maior cotação em seis anos, a R$ 186 o grama. “O ouro é um porto seguro de liquidez imediata. O investidor acabou correndo para o ouro”, reforça.

Amanhã, com a agenda de indicadores mais fraca, analistas apostam que a moeda tende a manter o ritmo de alta com a escalada da guerra comercial. A volta das discussões em torno da reforma da Previdência entre parlamentares, porém, pode trazer “um pouco de refresco” para os ativos, diz o diretor da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer, depois de seis altas seguidas da moeda estrangeira. “Não pode ter declarações do Trump no Twitter. Aí, o mercado mantém o estresse”, diz.

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