Bolsa cai mais de 1% e dólar vai a R$ 3,80 com fala confusa de Powell

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de 1,08%, aos 101.812,12 pontos, refletindo incertezas quanto ao possível início de ciclo de corte de juros nos Estados Unidos depois que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) cortou a taxa em 0,25 ponto percentual (pp) hoje, mas deu sinalizações contraditórias sobre o que pode acontecer nas próximas reuniões.

As incertezas sobre as declarações do presidente do Fed, Jerome Powell, ajudaram o índice a fechar no menor nível em quase um mês, desde o dia 2 de julho (100.605,17 pontos). Porém, em julho, o Ibovespa ainda subiu 0,84%. O volume total negociado foi de R$ 19,9 bilhões.

“O corte foi dentro do script, mas a fala de Powell, que disse que o corte não é o início de um ciclo e foi um pouco mais dura do que a esperada pelo mercado, fez os mercados reagirem negativamente”, disse o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira.

O analista da Terra Investimentos, Régis Chinchila, também destacou a declaração de Powell sobre o ciclo de juros, que chegou a ser interpretada como a possibilidade de um corte único da taxa. Porém, em seguida, o presidente do Fed negou que a sua afirmação indique que vai cortar os juros uma vez só. “O fato é que ele disse que a perspectiva não é de que esse seja o início de um corte de juros. Claro que novos cortes são possíveis, mas não trouxe essa sinalização”, afirmou o analista.

A falta de clareza nas sinalizações do Fed, que acabou deixando várias portas abertas, também trouxe mais especulações sobre o que o Comitê de Política Monetária (Copom) fará na reunião de hoje, às 18h. Por aqui, as apostas estão mais divididas entre um corte de 0,25 pp e 0,50 pp, embora as expectativas de corte mais agressivo terem ganhado força nos últimos dias.

Entre as ações, as de bancos pesaram sobre o Ibovespa, como do Itaú Unibanco (ITUB4 -2,73%) e do Bradesco (BBDC4 -2,59%), que passaram a ficar entre as maiores perdas do índice. Ontem, os papéis do Itaú já haviam encerrado com queda de mais de 3% após a divulgação do balanço, com alguns investidores se preocupando com o impacto da maior concorrência no setor, da lenta retomada da oferta de crédito e possíveis cortes da Selic.

Na contramão, as ações da B2W (BTOW3 3,69%), da Smiles (SMLS3 4,31%) e das Lojas Americanas (LAME4 4,13%) são as maiores altas do índice. As Lojas Americanas e a B2W concluíram os estudos relacionados ao Projeto Ame – aplicativo de produtos financeiros e serviços diversos desenvolvido pelas empresas – e aprovaram a participação das duas companhias na plataforma. 

Amanhã, investidores devem continuar digerindo as declarações de Powell e repercutir também a decisão do Copom, além de continuar de olho em balanços corporativos, como o da Vale, que será divulgado hoje à noite. Para Bandeira, a reação negativa ao Fed, não necessariamente irá se repetir amanhã. “Acho que não muda a tendência de bancos centrais ainda poderem afrouxar as políticas monetárias”, afirmou.

O dólar comercial fechou em alta de 0,71% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8180 para venda – na terceira alta seguida e no maior patamar desde 5 de julho – com o mercado reagindo negativamente ao discurso dado como “confuso” de Jerome Powell, presidente do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano), sobre a decisão de política monetária que baixou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, pela primeira vez em 11 anos. No mês, porém, a moeda se desvalorizou em 0,59%, acumulando dois meses seguidos de queda.

As falas de Powell durante coletiva de imprensa deixaram o mercado global incomodado quando alegou que “o corte de juros não é necessariamente o início de um ciclo de afrouxamento monetário nos Estados Unidos”. Ele classificou a decisão – que reduziu a taxa para a faixa de 2,00% a 2,25% – como uma precaução contra os riscos às perspectivas econômicas do país.

“Não é o começo de uma longa série de cortes de juros. Eu não disse que é apenas um [corte] ou qualquer coisa assim. Eu disse que quando você pensa em ciclos de corte de taxa, eles duram muito tempo. O comitê não está vendo isso, não estamos nos vendo neste lugar”, disse Powell.

Para o economista da Tendências Consultoria, Silvio Campos, as falas do presidente do Fed causaram impactos expressivos, com destaque para o fortalecimento do dólar. “A indicação de Powell de que o corte de hoje não representa necessariamente um início de ciclo, entra em choque com a atual precificação de mercado de novas quedas à frente”, avalia.

Campos reitera que o maior impacto das declarações de Powell ocorreu quando ele definiu o corte como um “mid-cycle adjustment” (ajuste de ciclo intermediário da política monetária) que, segundo ele, contrasta com o início de um ciclo de queda. Com isso, a moeda renovou máximas sucessivas a R$ 3,8240 (+0,87%), em sessão em que chegou a operar na mínima de R$ 3,75 (-1,08%).

“Ou seja, o movimento seria a princípio apenas um ajuste, e não necessariamente um início de ciclo de afrouxamento. Powell buscou amenizar a declaração ao mencionar que não é um início de uma longa série de cortes nos juros e que ele não havia dito que será uma única redução. Ainda assim, mesmo que isso tenha segurado o ímpeto da correção, o recado já havia sido dado”, analisa Campos.

Amanhã, investidores seguirão repercutindo a decisão do Fed e reagirão ao comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), que definirá a taxa básica de juros (Selic) hoje, após o fechamento do mercado. “Mesmo com o tom não muito dovish [suave] do Fed, o Copom não deverá recuar mantendo a estabilidade e sim, deverá cortar a taxa. Vamos ver a magnitude”, diz a economista-chefe do Ourinvest, Fernanda Consorte. 

Na agenda de indicadores, mais tarde, tem os índices dos gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) da atividade industrial do Japão e da China, e amanhã, saem os dados dos Estados Unidos e da zona do euro, além da decisão de política monetária do Reino Unido.

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