Bolsa cai e dólar sobre em dia de bate-boca entre Guedes e deputados na CCJC

São Paulo – Após subir pela manhã acompanhando cenário externo, o Ibovespa virou e fechou em queda de 0,93%, aos 94.491,48 pontos, refletindo a continuidade de dúvidas sobre a capacidade de articulação do governo em torno da reforma da Previdência depois da participação do ministro da Economia, Paulo Guedes, na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC). O volume total negociado foi de R$ 14,8 bilhões.

Havia grande expectativa pela ida de Guedes à comissão, que é a primeira a avaliar a reforma, e se esperava que o tom do ministro fosse mais brando depois de troca de farpas entre o Palácio do Planalto e do Executivo. No entanto, discussões com deputados no início da apresentação e a monopolização de perguntas de deputados da oposição trouxeram temores de mais dificuldades na tramitação do projeto. Além disso, há receio de uma desidratação maior que o previsto, embora ainda se aposte na aprovação do projeto.

“Não importava tanto o conteúdo, mas o tom do discurso, porque o conteúdo é dado, o governo quer fazer uma reforma mais dura. Mas a maneira com que foi feita a discussão, que teve um bate-boca no começo, deu a entender que realmente vai ser difícil aprovar a reforma”, disse o analista da corretora Necton, Alvaro Frasson. Para ele, Guedes tem bons argumentos e é tecnicamente competente, mas “falta capacidade política”, sendo que a articulação não deveria “estar no seu colo”.

Os temores sobre a articulação e muitas mudanças no projeto trazem dificuldades de precificação pelo mercado e podem continuar trazendo volatilidade para o índice, acreditam analistas.

Antes da CCJC, porém, o Ibovespa operava em alta refletindo notícias de que um acordo comercial entre a China e os Estados Unidos estaria 90% pronto, além dos dados do setor de serviços chinês ter vindo mais fortes.   

Nos próximos dias, investidores devem continuar acompanhando o noticiário em torno da reforma da Previdência e um possível acordo entre China e Estados Unidos, além de esperarem os dados do mercado de trabalho norte-americano (Payroll) na sexta-feira.

O dólar comercial caminhava para um dia de queda após dados positivos sobre a economia da China e dos Estados Unidos, mas o clima esquentou hoje na CCJC enquanto Guedes tentava explicar a reforma da Previdência para os deputados, gerando bate-boca e incerteza dos investidores.

Com isso, o dólar comercial encerrou as negociações de hoje com alta de 0,54%, sendo negociado a R$ 3,8790 para venda e a R$ 3,8770 para compra. Na mínima do dia, a moeda norte-americana chegou a ser cotada com queda de 0,62%, a R$ 3,8340 para venda. “No começo da fala teve um entrevero e Guedes caiu na armadilha da oposição”, afirmou Alexandre Horstmann, diretor de gestão da Meta Asset Management.

Horstmann lembra ainda que os investidores esperavam um clima mais ameno, assim como foi a apresentação de Guedes no Senado. “Que a reforma passará nós sabemos que vai passar, mas a questão é qual reforma que irá passar”, explicou o especialista, referindo-se à diluição que pode ocorrer na reforma da Previdência e o governo não conseguir economizar o valor pretendido inicialmente.

A dimensão fiscal do problema do sistema previdenciário é “inescapável” e a necessidade de solucioná-lo independe do viés ideológico do governo, visto que no formato atual o sistema está condenado, afirmou Guedes, durante audiência pública da CCJC da Câmara dos Deputados.

“É muito importante entender que nosso sistema está financeiramente condenado antes da população brasileira envelhecer, não interessa quem estiver no poder”, disse Guedes. “Esse orçamento não tem bandeira, não tem cor. Eu concordo que na hora de mexer há efeitos diferentes, mexer um pouco mais aqui, ali, e colorações políticas fazem diferença, mas dimensão fiscal é incontornável”, acrescentou.

“Este problema está se impondo e nós conhecemos vários exemplos do mundo: Grécia, Portugal, e imaginamos como deve estar a Previdência na Venezuela hoje”, disse Guedes, num comentário que despertou críticas da oposição e provocou um bate-boca na comissão, interrompendo brevemente o pronunciamento do ministro.

Para amanhã, Horstmann preferiu não apontar um viés de alta ou de queda para o dólar comercial amanhã. “Ainda tem muita CCJC pra acontecer hoje e não dá pra dizer qual será o viés de amanhã”, finalizou o especialista da Meta Asset Management.

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