Bolsa cai e dólar sobe com fala do presidente do Fed e possível soltura de Lula

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – Após quatro pregões consecutivos de alta e de renovar seus recordes históricos ontem, o Ibovespa fechou em queda de 1,92%, aos 100.092,95 pontos, refletindo a piora do humor externo em função do discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, que esfriou expectativas de cortes de juros mais fortes. A cena política local também pesou, com a notícia de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser solto e que o relatório da reforma da Previdência pode atrasar para ser votado na comissão especial.

Durante a tarde, o Ibovespa chegou a perder os 100 mil pontos, atingindo a mínima de 99.890,22 pontos e caindo mais de 2%. O volume negociado total foi de R$ 15,6 bilhões.

“Temos um festival de notícias ruins hoje, em um quadro de Ibovespa batendo recordes, o que atrai uma realização de lucros e faz com investidores busquem um pouco de proteção”, disse o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira. No cenário externo, Bandeira destaca que o dia já era de cautela com a tensão entre Irã e Estados Unidos e dados mais fracos de atividade, o que piorou após a fala de Powell e também do presidente do Fed de Saint Louis, James Bullard, que sinalizaram que possíveis cortes de juros podem não ser tão intensos como alguns investidores podem ter imaginado.

“Se resumirmos a fala de Powell com a de Bullard a avaliação é que há espaço para flexibilização da política monetária, para cortar juros, mas não para um corte de 0,50 ponto percentual (pp) na taxa de juros, talvez um corte de 0,25 pp”, explicou o economista.

Já no Brasil, a notícia de que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, propôs que Lula aguarde o julgamento dos seus pedidos de habeas corpus em liberdade pegou o mercado de surpresa e ajudou a intensificar perdas. Para Bandeira, a possibilidade de Lula ser solto contribui para um clima político mais tenso, antes ainda antes de manifestações pró-ministro da Justiça, Sérgio Moro, marcadas para este domingo (30).

Ainda na cena doméstica, o analista de investimentos do Banco Daycoval, Enrico Cozzolino, destaca que o possível atraso na votação da reforma da Previdência, na comissão especial, foi mais um pretexto para investidores embolsarem lucros depois das últimas altas do índice. A expectativa agora é que a votação ocorra na semana que vem, sendo que inicialmente era que ocorresse até esta quinta-feira (27). Para Cozzolino, no entanto,

Para o analista, porém, apesar de poder atrasar, o importante é que a reforma “pode ser mais robusta”, além disso, vê o Ibovespa negociando em uma nova faixa de preços, podendo ter como novo “piso” os 98 mil pontos, apesar de realizações pontuais.

Entre as ações, as da Petrobras (PETR3 -2,74%, PETR4 -2,58%) estão entre as que mais pesaram para a queda do Ibovespa. As ações de bancos, que chegaram a subir mais cedo também ampliaram perdas, caso dos papéis do Itaú Unibanco (ITUB4 -1,24%). Porém, as maiores baixas do índice ficaram com as ações da B3 (B3SA3 -5,14%), que devolveram os ganhos vistos na semana passada.  Na contramão, entre as únicas altas ficaram as ações da JBS (JBSS3 0,50%).

Amanhã, investidores devem continuar acompanhando de perto o cenário externo e o andamento da reforma da Previdência, podendo repercutir ainda a possível soltura de Lula, com seu caso ainda sendo analisado pelo STF.

O dólar comercial fechou em alta de 0,65% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8530 para venda, influenciado por declarações de que o texto final da reforma da Previdência na comissão especial da Câmara dos Deputados poderá ser votado na semana que vem, somado ao exterior mais negativo após declarações de dirigentes do Fed sobre os próximos passos da política monetária no país.

Para o diretor de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik, um conjunto de notícias colocou “pressão no dólar” ao longo do dia. No fim da manhã, um fluxo pontual de saída de investidores estrangeiros, “normal” nos fins de semestre em que empresas multinacionais costumam fazer remessas de lucros e dividendos, pondera Rugik.

Fato que levou o Banco Central (BC) a anunciar de forma “inesperada” a oferta do leilão de linha – venda de dólar com compromisso de recompra, de até US$ 1 bilhão. Foram aceitas quatro propostas para o valor total. “O BC viu que faltou dólar no mercado à vista”, diz o diretor.

À tarde, uma piora no exterior contaminou o mercado doméstico após declarações do presidente do Fed, Jerome Powell, sobre a política monetária do país. Para a equipe econômica do banco Fator, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês acompanha “dois riscos contracionistas”, a guerra comercial e a desaceleração da economia no mundo.

“Na reunião do Fomc de maio, evidências preliminares sugeriram que estes dois riscos estavam moderados e, segundo Powell, não havia justificativa para ajustar a taxa de juros. Contudo, cresceu a incerteza em relação a guerra comercial, com efeitos sobre a confiança das empresas e, consequentemente, queda no investimento”, avalia.

Segundo analistas, as apostas para um corte na taxa de juros em julho, na próxima reunião do Fed, seguem altas, porém, “a dúvida é sobre o tamanho da queda”, dizem os analistas do Fator. Hoje, o presidente da unidade do Fed de Saint Louis, James Bullard, disse que um corte de 0,50 ponto percentual (pp) na taxa de juros não será necessário em julho, e defendeu corte de 0,25 pp.

Amanhã, o mercado doméstico deverá se concentrar na reforma da Previdência à espera de uma decisão sobre a votação do texto final do relator Samuel Moreira (PSDB-SP) na comissão especial. Se será concluída até quinta-feira ou se ficará para a próxima semana como já sinalizou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e com as declarações do líder do PP na Câmara, Arthur Lira, de que a sigla defende que o texto não seja votado nesta semana.

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