Bolsa cai e dólar sobe após votação da reforma da Previdência ser remarcada para 23/4

Por Eduardo Puccioni e Flavya Pereira

São Paulo – Os investidores iniciaram o dia animados com uma possível votação da proposta da reforma da Previdência ainda hoje, fazendo o Ibovespa chegar a operar em alta pela manhã, porém, depois ficou acordado que não haveria votação e que a próxima reunião da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados ficaria para o dia 23, semana que vem, e isso pesou no índice que chegou a cair 2%.

No final da sessão, a queda perdeu força mas não evitou uma nova inversão, com o Ibovespa fechando com queda de 1,11% aos 93.284,75 pontos. O volume financeiro do mercado foi de aproximadamente R$ 35,1 bilhões, já incluindo o exercício de opções sobre Ibovespa.

“Mercado está vivendo cada dia uma notícia diferente. Hoje teve vencimento de Ibovespa futuro e isso pressionou bastante o mercado. Lá fora não tivemos nada que influenciou o mercado aqui”, afirmou José Costa, economista-chefe da Codepe Corretora. “Mercado hoje tá mais para os 90 mil pontos do que para os 100 mil pontos”, acrescenta Costa.

“A habilidade da oposição na CCJC desanimou o mercado hoje. Mercado também está mais nervoso com o vencimento de opções sobre Ibovespa. E pra finalizar ainda saiu uma notícia na tarde de hoje dizendo que a Petrobras vai mudar a forma do cálculo para o reajuste do diesel. Isso tudo tem deixado o mercado na incerteza”, explicou Alfredo Siqueira, sócio-presidente da DNAinvest.

Segundo analistas de mercado, grande parte dos investidores ainda acreditavam que a votação da reforma da Previdência poderia ocorrer entre hoje ou amanhã, com isso, o pedido do relator acabou pesando sobre o índice. pedido foi acolhido pelo presidente da CCJC, Felipe Francischini (PSL-PR), que encerrou a sessão atual e convocou outra para o dia 23.

Francischini argumentando que a expectativa era de que a comissão especial – próximo órgão a analisar a proposta de reforma da Previdência – só deve começar a funcionar em maio e que o prazo maior para o relator da medida não atrasaria a tramitação. A revisão ocorrerá a pedido de líderes partidários da Câmara – em particular daqueles do chamado “centrão”, que representam 278 dos 513 deputados.

As ações da Petrobras fecharam perto da estabilidade após rumores de que a companhia iria mudar a forma de cálculo para o reajuste do preço do diesel. Segundo Costa, a empresa deve ter feito algum acordo com o governo e quando o reajuste for alta, o governo abra mão de algum importo, tipo Programa de Integração Social (PIS)/Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e a empresa “breca” um aumento no preço do diesel.

Para amanhã, o índice segue sem tendência definida, aguardando algum dado econômico ou notícia política que possa influenciar nos negócios. Hoje a Petrobras concederá uma coletiva de imprensa, marcada para às 18h (horário de Brasília) com efeito apenas na sessão de amanhã do Ibovespa.

O dólar fechou em alta de 0,79% no mercado à vista, negociado a R$ 3,9350 para venda, em dia de sessão marcada pelo adiamento da votação do parecer sobre a proposta da reforma da Previdência na CCJC para a semana que vem. Após a notícia, no início da tarde, o dólar renovou sucessivas máximas chegando ao redor de R$ 3,95.

Avaliada por analistas como uma “condução no mínimo contestável do tema”, o relator da reforma na CCJC, o deputado Marcelo Freitas (PSL-MG), pediu prazo para revisar o texto até a próxima terça-feira e indicou que não necessariamente fará alterações ao texto.

“Pelo visto eles não estão se falando. O que se viu hoje na Comissão foi a falta de articulação estratégica por parte do governo. E a criação de uma expectativa desnecessária pelo mercado fez o dólar saltar aqui, mesmo quando no exterior, a moeda se desvalorizou ante às moedas [de países] emergentes”, avalia o operador da corretora Advanced, Alessandro Faganello.

O dia mais positivo no exterior para as moedas de países emergentes com dados animadores na China, como o crescimento de 6,4% no primeiro trimestre – acima da expectativa de 6,3% – foi apagado pelas questões internas envolvendo a reforma da Previdência na CCJC.

“A China dá sinais de estabilização e vem conseguindo remover as incertezas de uma desaceleração acentuada. Ainda é cedo para cravar que esse movimento é sustentável enquanto não terminam as negociações comerciais do país com os Estados Unidos”, comenta Faganello.

Segundo a agência de notícias “Dow Jones”, os governos norte-americano e chinês devem assinar acordo comercial no fim de maio, quando teriam agendado, provisoriamente, uma nova rodada de encontros para o desfecho da guerra tarifária que se arrasta desde março do ano passado.

Amanhã, analistas reforçam que o mercado deve monitorar declarações de membros do governo relacionadas à votação da reforma da Previdência, além do viés de cautela na véspera do feriado. “Hoje vimos um movimento acentuado de busca de proteção com o adiamento da votação do parecer da reforma. Amanhã, esse movimento deve continuar”, comenta o diretor de uma corretora nacional.