Bolsa cai e dólar sobe em dia de ambiente político incerto no Brasil

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São paulo – Após dois pregões seguidos de alta, o Ibovespa fechou em queda de 0,36%, aos 97.466,69 pontos, refletindo a espera pelo relatório da reforma da Previdência e a maior cautela dos investidores em função da divulgação de conversas entre procuradores da Lava Jato e o ministro da Justiça, Sérgio Moro. O volume total negociado foi de R$ 11,6 bilhões.

“Está todo mundo na espera do relatório da Previdência e essas conversas do Moro trouxeram ruídos”, disse o analista da Guide Investimentos, Rafael Passos. Há grande expectativa pelo relatório da Previdência na comissão especial da Câmara dos Deputados, que inicialmente seria apresentado amanhã, mas deve ser conhecido apenas na quinta-feira. O mercado também deverá aguardar a votação nesta semana do projeto de lei (PLN 4/2019) que autoriza o Executivo a tomar R$ 248,9 bilhões em empréstimos para pagamento de despesas correntes.

Além da ansiedade pelo texto do relator da Previdência, as conversas envolvendo Moro publicadas pelo site “The Intercept” trazem cautela adicional, diante de possíveis reflexos no Congresso e em decisões já tomadas pela Lava Jato. Ainda há receio de que mais informações possam ser divulgadas. Segundo o site, mensagens mostram que o ex-juiz e atual ministro deu orientações a procuradores, interferindo em processos.

Para o analista da Toro Investimentos, Felipe Fernandes, a princípio, a troca de mensagens do ex-juiz e atual ministro não devem impactar a reforma, mas não descarta futuros impactos. “Acredito que os principais nomes do Congresso têm em mente a necessidade da reforma. Ela seria afetada se houvesse alguma informação mais relevante, mais forte”, afirmou.

Com a cautela local, o Ibovespa operou descolado do cenário externo, já que as bolsas norte-americanas fecharam em alta com os investidores animados com o adiamento do aumento de tarifas sobre produtos mexicanos. 

Entre as ações, as de bancos ficaram entre os destaques de queda hoje, apesar de desacelerarem perdas ao longo do dia. É o caso das ações do Itaú Unibanco (ITUB4 -1,25%), Bradesco (BBDC4 -1,63%) e Banco do Brasil (BBAS3 -1,3%). Além dos ruídos políticos envolvendo a Lava Jato, os papéis também refletiram o início de cobertura de bancos pelo Goldman Sachs, que se mostrou cauteloso com alguns papéis, com recomendação de venda para Bradesco e Itaú, por exemplo. Além dos papéis de bancos, as ações da Cemig (CMIG4 -2,97%) e da Engie Brasil (EGIE3 -2,40%) ficaram entre as maiores perdas do Ibovespa devolvendo ganhos da semana passada.

Na contramão, as ações de frigoríficos, como BRF (BRFS3 ,98%), e de siderúrgicas, como CSN (CNA3 3,92%) encerraram entre as maiores altas do índice. Para o analista da Guide Investimentos, os frigoríficos tiveram a oportunidade de recuperar perdas recentes diante de um alívio na guerra comercial no exterior, o que ajuda preços de commodities, entre elas as do

minério de ferro, que refletem nas siderúrgicas também.

Amanhã, investidores devem ficar atentos a votações no Congresso e a possíveis repercussões das mensagens trocadas por Moro. Na agenda de indicadores, destaque para índices de preços ao produtor na China e nos Estados Unidos. Para Passos, o Ibovespa pode continuar oscilando em torno dos 95 e 98 mil pontos à espera da Previdência no curto prazo, e caso não ocorram surpresas.

O dólar comercial fechou em alta de 0,18% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8850 para venda, em dia de forte oscilação da moeda estrangeira influenciado pelo volume de negócios baixo, além do desempenho mais forte no exterior frente a algumas divisas ligadas às commodities. No cenário doméstico, ruídos envolvendo o ministro da Justiça, Sergio Moro, também movimentou o mercado.

O diretor de uma corretora nacional comenta que os rumores a respeito de Moro levaram a um movimento de proteção. “Ajudou também para esse movimento uma agenda política forte na semana, com a votação de crédito suplementar para o governo federal e a apresentação do relatório da reforma da Previdência [prevista para quinta-feira]”, comenta o diretor.

O assunto pode impactar no pregão de amanhã, diz o analista da Toro Investimentos, Felipe Fernandes, com investidores atentos aos desdobramentos dos ruídos envolvendo o ministro após reportagem do site The Intercept, divulgada ontem, apontar que, quando juiz federal, ele interferiu na operação Lava Jato.

“Qualquer nova informação pode precificar. Mas não vejo o caso interferindo nas pautas do governo e principalmente, na reforma da Previdência”, diz o analista da Toro.

O presidente da comissão especial da Previdência na Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PR-AM), porém, disse que pretende trabalhar para evitar que as notícias contra Sergio Moro contaminem a tramitação da reforma. “Os fatos envolvendo o ministro Moro, se confirmados, atentam contra o Estado Democrático de Direito, mas temos a responsabilidade de não deixar que contamine o andamento da reforma da Previdência que seguirá o calendário definido pela Comissão”, disse ele em sua conta no Twitter.

Já na agenda de indicadores, o destaque fica para o índice de preços ao produtor (PPI, em inglês) dos Estados Unidos. Para o analista da Toro, são números que farão o mercado acompanhar o desempenho da economia norte-americana e pode “reforçar” a leitura de corte da taxa de juros, destaca.