Bolsa cai e dólar sobe de olho em desaceleração econômica global e relação entre EUA e China

07/12/2018 19:01:06

Por: Danielle Fonseca e Flavya Pereira / Agência CMA

São Paulo – O Ibovespa fechou em queda pelo segundo dia seguido, com perdas de 0,82%, aos 88.115,07 pontos, acelerando perdas perto do fim do pregão acompanhando os índices norte-americanos. As bolsas do país passaram a cair mais de 2% em meio a expectativas de desaceleração da economia norte-americana e mais preocupações com a relação entre Estados Unidos e China. O volume negociado foi de R$ 15,036 bilhões. Na semana, a queda do índice é de 1,55%.

“As bolsas americanas estão caindo forte e o mercado está sensível. Há preocupação com uma desaceleração da economia norte-americana, o que já vem sendo precificado pela curva de juros deles. Além da tensão entre Estados Unidos e China e a questão da Opep, tudo isso têm deixado o mercado mais na defensiva, trouxe incertezas”, disse o sócio da DNAInvest, Leonardo Ramos.

Mais cedo, os dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos mostraram uma criação de vagas e crescimento do salário médio abaixo do previsto, o que traz a expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) possa reduzir o ritmo de aumento da taxa de juros. Essa expectativa é positiva para ativos de maior risco, como os de países emergentes como o Brasil e ajudou o Ibovespa a subir mais cedo.

Por outro lado, está crescendo o temor de desaceleração da economia norte-americana, o que também pode afetar a economia global. Alguns membros do Fed endossaram hoje essas preocupações e têm adotado um tom mais “dovish”, ou seja, menos duro com a política monetária.

Além disso, analistas alertam para um possível agravamento da tensão entre China e Estados Unidos, depois da prisão da executiva da empresa chinesa de tecnologia da Huawei. Membros do governo norte-americano voltaram a defender um endurecimento das negociações comerciais com a China. “O novo posicionamento do diretor do Conselho de Comércio da Casa Branca, Peter Navarro, que defendeu a política de tarifas de Donald Trump e a declaração do diretor do Conselho Econômico Nacional do governo dos Estados Unidos, Larry Kudlow, citando que a gigante tecnológica Huawei vem violando as sanções de Washington ao Irã, pesam nos mercados globais”, disse o diretor da Correparti Corretora, Jefferson Rugik.

Os preços do petróleo, porém, fecharam em forte alta após a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) decidir por cortar a produção da commodity, o que manteve as ações da Petrobras (PETR3 1,20%; PETR4 0,65%) em alta. Os papéis da Eletrobras (ELE3 1,70%; ELET6 0,87%), por sua vez, tiveram a maior alta do Ibovespa depois que o BNDES atestou documentos e confirmou o leilão da sua subsidiária Amazona Energia para o dia 10 de dezembro. Na contramão, as maiores quedas do Ibovespa ficaram com os papéis da Fleury (FLRY3 -3,23%), da CSN (CSNA3 -3,23%) da Gol (GOLL4 -2,99%).

No mercado doméstico, o analista da Guide Investimentos, Rafael Passos, lembra que o mercado ainda aguarda avanços sobre reformas e monitora declarações desencontradas de membros da equipe e do partido do presidente eleito Jair Bolsonaro. “Isso pesa um pouco, ainda está faltando um trigger para a Bolsa subir no mercado interno”, disse.

Para a semana que vem, a grande espera deve ser pelo discurso do presidente do Fed, Jerome Powell, na próxima quarta-feira, na ânsia de que possa dar mais sinais sobre o ritmo da alta dos juros, além disso, a relação sino-americana deve continuar no radar. Já no Brasil, seguirá o foco nas articulações de Bolsonaro, fatores que devem trazer volatilidade.

O dólar comercial fechou em alta de 0,41%, negociado a R$ 3,8910 para venda, em linha com uma piora no mercado de ações no exterior na reta final dos negócios, após alívio em parte dos negócios com os dados de novembro do emprego nos Estados Unidos, o payroll, abaixo do esperado pelo mercado. Na semana, o dólar registrou alta de 0,93%, e acumula cinco semanas de valorização.

“Os números do payroll frustraram as previsões ao anunciar a criação de um número de postos de trabalho em novembro abaixo do esperado, o que fez o dólar rumar a patamares abaixo de R$ 3,86 [mínima do dia], em meio à leitura de que o ritmo de elevações de juros pelo Federal Reserve [Fed, o banco central norte-americano] pode ser reduzido”, comenta o analista de câmbio de uma corretora nacional.

O economista da Tendências Consultoria, Silvio Campos, avalia que o cenário corrente da economia norte-americana segue positivo, o que se traduz em um mercado de trabalho sólido, diz ele.

“A visão prospectiva traz um cenário mais nebuloso, com menores impulsos fiscais e monetários para 2019, leitura que já se traduz em apostas mais comedidas para a magnitude do ajuste nos juros ainda por vir, o que já pode ser observado na queda do rendimento dos títulos norte-americanos (treasuries)”, avalia Campos.

A agenda de indicadores da próxima semana é mais esvaziada. O destaque no mercado local fica com a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) que deve manter a taxa básica de juros (Selic) em 6,50% pela sexta vez consecutiva. Segundo o diretor da Meta Asset, Alexandre Horstmann, o cenário para a semana que vem deve ser de volatilidade. “Parece que veio para ficar”, diz.

Já o diretor de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik, reforça que os próximos dias serão de “preparo” a decisão do Fed na semana seguinte. “Todo mundo quer saber os próximos passos para 2019. Se será um ajuste muito mais gradual, ou se deixará de subir por enquanto. Mas a aposta continua para alta de juro em dezembro”, avalia.

Deixar um comentário