Bolsa cai e dólar sobe com realização e cautela com tensão comercial entre EUA e China

29/10/2018 19:31:12

Por: Danielle Fonseca e Flavya Pereira / Agência CMA

São Paulo – Após chegar a superar o recorde histórico do Ibovespa na abertura (atingindo 88.377,16 pontos na máxima do dia, alta de 3,10%) em função da vitória de Jair Bolsonaro (PSL), o índice cedeu a uma realização de lucros e a uma piora do cenário externo, fechando em queda de 2,24%, aos 83.796,71 pontos. O volume financeiro foi de R$ 25,1 bilhões, mostrando um elevado fluxo de negócios.

“A vitória de Bolsonaro estava bem precificada e, agora que passou o rali eleitoral, o mercado vai ficar de olho no que vem pela frente”, disse o analista da Spinelli Corretora, Álvaro Frasson. Depois que Bolsonaro derrotou ontem o candidato Fernando Haddad (PT), como já esperado pelo mercado, investidores optaram por colocar o dinheiro no bolso, já que no mês de outubro, o Ibovespa ainda acumula alta de 5,61%.

Somado ao fator realização de lucros, há alguma cautela à espera dos nomes do novo governo e sinalizações pelas primeiras medidas que serão tomadas. No entanto, a expectativa dos agentes é positiva, por enquanto.

A aceleração da queda do Ibovespa perto do final do pregão ainda foi motivada por uma piora do cenário externo, com bolsas norte-americanas passando a cair após a notícia de que o governo de Donald Trump prepara uma nova rodada de tarifas sobre bens chineses.

A volta da tensão comercial com a China afetou commodities, como os preços do petróleo, que encerraram em baixa e refletiram nas ações da Petrobras (PETR4 -4,28%). Os papéis da Vale (VALE3 -4,50%) foram outro destaque de queda, acompanhando a queda da bolsa de Xangai diante de números mais fracos da economia chinesa, maior consumidora de minério de ferro.

As maiores perdas do Ibovespa ficaram com as ações da Kroton (KROT3 -7,22%) e da Gol (GOLL3 -6,48%). Na contramão, as maiores altas ficaram com os papéis da CCR (CCRO 3 2,27%) e da Cielo (CIEL3 1,89%).

Para os próximos dias, analistas acreditam que o viés ainda é positivo para a Bolsa, apesar da queda de hoje. Entretanto, o cenário externo, balanços corporativos e especulações sobre nomes da equipe de Bolsonaro podem trazer volatilidade.

“A lua de mel do mercado com Bolsonaro tem prazo de validade, que é a primeira grande votação majoritária do governo no Congresso. Até lá o governo vai precisar sinalizar duas coisas: que irá compor com os demais partidos para criar uma ampla frente parlamentar; e que está de fato comprometido com a agenda econômica reformista e liberalizante que o país tanto precisa”, acredita a equipe da Guide Investimentos.

O dólar comercial fechou em forte alta de 1,39%, cotado a R$ 3,7060, um dia após a eleição de Jair Bolsonaro para presidente da República com 57,7 milhões dos votos válidos (55,1%). Apesar de especialistas terem apostado que o dólar ficaria entre R$ 3,50 e R$ 3,60, os mercados locais foram influenciados pelo exterior onde a guerra comercial entre Estados Unidos e China parece ganhar um novo capítulo.

Animados com a vitória do candidato do PSL, o dólar abriu em forte queda atingindo a mínima de R$ 3,5830 (-1,97%), porém, depois de exibir forte volatilidade ao longo do pregão, chegou à máxima de R$ 3,7180 (+1,72%).

“O mercado aguarda com grande ansiedade o posicionamento de Bolsonaro e sua equipe econômica sobre temas cruciais do próximo governo. Acreditamos que até agora o mercado precificou a derrota do PT, uma vez que se sabia com mais precisão o que é o PT do que o PSL poderá vir a ser. Agora a bola, está com Bolsonaro e Paulo Guedes [futuro ministro da Economia] e é hora de precificar o que pretendem”, avalia o economista-chefe da Spinelli, André Perfeito.

Porém, o acirramento entre Estados Unidos e China parece voltar aos holofotes depois da notícia de que os Estados Unidos podem impor uma nova rodada de tarifas sobre produtos chineses em dezembro, caso as negociações entre as duas maiores economias do mundo não avancem. “Lá fora, essa notícia pesou muito e respingou em todas as emergentes. Com o real não foi diferente”, comenta o diretor da Meta Asset, Alexandre Horstmann.

Para Horstmann, também houve viés de correção nos ativos locais com a “ficha do mercado caindo, depois das eleições, de que o governo Bolsonaro pode ser pior do que se esperava”. Segundo ele, os ruídos vindos da equipe que deve formar o governo PSL corroboram para isso, visto que o possível ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, “não quer que a reforma da Previdência seja como a proposta pelo governo de Michel Temer. Se levarem isso a sério, começará tudo do zero e a reforma não sairá em 2019 como deveria ser”, diz.

Para amanhã, o diretor da Meta diz que é preciso monitorar o movimento externo com rumores em torno da guerra tarifária entre norte-americanos e chineses. Além disso, o foco do mercado se volta aos anúncios de Bolsonaro quanto aos nomes que irão compor a equipe e as medidas econômicas a serem tomadas.

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