Bolsa cai e dólar sobe com investidores esperando por Previdência e CPI de Brumadinho

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de 0,72%, aos 100.605,17 pontos, refletindo a ansiedade de investidores à espera da leitura do parecer da reforma da Previdência na comissão especial e as perdas das ações da Vale, que sentiram as conclusões de relatório da CPI de Brumadinho. Durante à tarde, o índice chegou a cair mais de 1%, atingindo a mínima de 100.072,77 pontos. O volume total negociado foi de R$ 18,4 bilhões.

O pregão de hoje foi marcado pela cautela à espera da leitura do parecer da Previdência, que estava marcada para às 16h. A sessão da comissão da Câmara, no entanto, atrasou cerca de 1h. A leitura hoje é considerada importante para que a votação na comissão ocorra essa semana e que o texto vá ao plenário antes do recesso parlamentar, que começa no dia 18 de julho. Também houve receio sobre as alterações que serão feitas no texto, com negociações ao longo do dia para a inclusão, entre outros pontos, de Estados e municípios, que acabou de fora do texto.

“O jogo político está sendo jogado e qualquer notícia altera o humor do mercado, mas o cenário base segue de aprovação da reforma, por isso, é preciso cuidado com ruídos”, disse o chefe de renda variável da Eleven Financial Research, Carlos Daltozo. Para o chefe de renda variável, o Ibovespa pode reagir negativamente caso ocorram atrasos no cronograma previsto, já que já estaria em parte precificada a expectativa de votação em julho na comissão e, pelo menos, no primeiro turno no plenário.

Ainda serão observados os comportamentos de deputados do próprio partido do presidente, o PSL, que estão pressionando pela inclusão de benefícios para policiais, e podem não entrar em acordo.

Entre as ações, as da Vale (VALE3 -4,23%) caíram mais de 4% depois que o senador Carlos Viana (PSD-MG) pediu, ao apresentar o parecer final da CPI criada no Senado para investigar o rompimento da barragem em Brumadinho (MG), o indiciamento de 14 funcionários da Vale e da empresa de auditoria alemã TÜV SÜD. O presidente afastado da Vale, Fábio Schvartsman, e o atual diretor financeiro, Luciano Siani, podem ser acusados de homicídio culposo, lesão corporal, destruição de flora e poluição.

Além da questão do indiciamento de executivos, analistas da XP Investimentos alertavam que o parecer pode trazer discussões de outros temas, como a segurança de barragens de rejeitos e a tributação da exploração de minério no país. “De fato, a discussão sobre royalties da mineração tem se intensificado. Nos nossos números o ebitda da Vale diminuiria 1,3% para cada 1% de aumento dos royalties”, avaliaram em relatório.

Ao lado das ações da Vale, as de siderúrgicas, como CSN (CSNA3 -3,30%), também ficaram entre as maiores perdas do Ibovespa e podem ser afetadas por mudanças no setor. Os papéis já caíam devolvendo ganhos de ontem, quando acompanham a forte alta de preços do minério de ferro. O dia também foi negativo para as ações da Petrobras (PETR3 -1,50%; PETR4 -1,61%), que acompanharam a aceleração das perdas dos preços do petróleo. Entre as maiores perdas do Ibovespa ainda ficaram as ações do IRB Brasil (IRBR3 -4,20%) e da BR Distribuidora (BRDT3 -3,67%).

Na contramão, as maiores altas do índice foram das ações da Via Varejo (VVAR 6,45%), que refletiram possíveis mudanças na diretoria da empresa feitas pela nova gestão. Em seguida, ficaram os papéis da JBS (JBSS3 3,17%) e da BRF (BRFS3 3,49%). As ações do setor de frigoríficos têm tido fortes altas desde ontem em meio a rumores de que a gripe suína africana terá impacto maior do que o esperado sobre o rebanho chinês, o que demandará mais importações e elevará preços de proteínas.

Amanhã, o foco seguirá na Previdência, com repercussões da sessão de hoje e da possível conclusão ou não da leitura do parecer. Além disso, investidores devem observar uma série de indicadores que serão divulgados nos Estados Unidos, como a criação de empregos no setor privado, às 9h15.

O dólar comercial fechou em alta de 0,26% no mercado à vista, cotado a R$ 3,8550 para venda – na terceira alta seguida – em dia forte oscilação da moeda norte-americana frente ao real -influenciada pelas incertezas e cautela antes da leitura do parecer final da reforma da Previdência, que começou há pouco na comissão especial da Câmara dos Deputados.

O analista de câmbio da Correparti, Guilherme França, destaca o movimento observado no início da tarde, quando renovou mínimas sucessivas a R$ 3,8200 (-0,65%) com a confirmação de líderes partidários de que a leitura do parecer final seria e a votação na comissão especial não seriam adiados.

“Isso depois de refletir a insegurança dos investidores sobre o calendário da reforma, o que levou a moeda a renovar máximas no fim da manhã”, diz o analista. A cotação da moeda estrangeira chegou a R$ 3,8820 (+0,96%) no mercado à vista.

Pela manhã, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, se encontrou com governadores para negociar a inclusão de estados e municípios na reforma da Previdência em busca de votos dos partidos dos governos estaduais no plenário. O relator da matéria, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), revelou que o assunto deve ser retomado quando o texto “chegar ao plenário”.

O assunto Previdência continuará amanhã, com investidores reagindo ao texto previsto para ser lido ainda hoje. Para o analista político da Levante, Felipe Berenguer, caso a votação seja adiada, será um termômetro para a relação do Planalto com o Congresso.

“Se passar, significa que o governo está conseguindo articular a tramitação da reforma. Se não passar, é indicação de que a relação está conturbada e os deputados decidiram adiar a aprovação da pauta para agosto – volta do recesso parlamentar da Câmara”, avalia.

Já na agenda de indicadores, o destaque fica para os dados sobre criação de emprego no setor privado dos Estados Unidos no mês passado (ADP), prévia do relatório de empregos (payroll), a ser divulgado na sexta-feira. Para o analista da Toro Investimentos, Matheus Amaral, os números ficam no radar do mercado após o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) alegar que espera por números “mais fortes” da economia para definir os rumos da política monetária do país, se corta a taxa de juros ou não.

“Vindo dados mais fortes, poderemos acompanhar um mercado mais animado lá fora para um corte de juros”, avalia. Com o feriado de 4 de julho nos Estados Unidos, o mercado financeiro encerrará as operações mais cedo amanhã, às 14 horas (de Brasília), o que deve refletir na liquidez ao redor do globo.