Bolsa cai e dólar sobe com eleições na Argentina e cautela por guerra comercial entre EUA e China

Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de 2%, aos 101.915,22 pontos, sentindo reflexos da turbulência que tomou conta do mercado argentino hoje depois da derrota do atual presidente Mauricio Macri nas eleições primárias do país. A tensão comercial entre China e Estados Unidos também segue no radar e trazendo maior busca por proteção. O volume total negociado foi de R$ 16,7 bilhões.

“As eleições na Argentina são o assunto do dia, não tem como fugir. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil e player importante no Mercosul, uma crise se agravando lá atinge o Brasil”, disse o analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino.

O Merval, principal índice da bolsa argentina, chegou a recuar mais de 35% e o dólar chegou a subir mais de 20% frente ao peso argentino, depois que Macri perdeu para Alberto Fernández, que possui a ex-presidente Cristina Kirchner como candidata a vice em sua chapa, pelo placar de 47% a 32%. A reação dos investidores fez o banco central argentino elevar a taxa de juros para 74,0%, de 63,7%.

Apesar do susto com os ativos argentinos, Cozzolino acredita que o impacto no mercado brasileiro pode ser pontual, já que a situação brasileira é diferente e os investidores locais ainda seguem com apetite. “É cedo para avaliar, mas também não é nenhum cenário de desespero e essa queda de hoje do Ibovespa pode ser uma oportunidade de compra”, afirmou.

Além das eleições na Argentina, o analista da Terra Investimentos, Régis Chinchila, cita outros fatores no cenário externo, como a guerra comercial, com investidores vendo uma solução para o impasse entre China e Estados Unidos cada vez mais distante. Somado a isso, chama a atenção a escalada de protestos contra o governo em Hong Kong, que têm afetados os mercados asiáticos. As bolsas norte-americanas ampliaram perdas nesta tarde e fecharam com quedas de mais de 1%.

A aversão ao risco no exterior ofusca a cena doméstica, de onde podem vir notícias positivas ao longo da semana, com o mercado acompanhando o andamento da reforma da Previdência no Senado, que não trouxe percalços até o momento, e aguardando medidas que podem ser anunciadas pelo governo.

Entre as ações, as de bancos fecharam com fortes perdas, com destaque para as do Itaú Unibanco (ITUB4 -4%), que ampliaram a queda e encerraram entre as maiores desvalorizações do índice. O dia também foi negativo para outras blue chips, como Petrobras (PETR4 -2,40%) e Ambev (ABEV3 -2,94%).

Entre as maiores quedas do índice, ao lado dos papéis do Itaú Unibanco, ainda ficaram as das ações da Gol (GOLL4 -7,20%), que sentem reflexos da alta do dólar, e da Qualicorp (QUAL3 -4,16%), que devolveram parte da alta de mais de 30% dos papéis na última sexta-feira depois da venda de fatia para a rede D’Or.

Na contramão, as maiores altas foram da JBS (JBSS3 5,76%) e da Marfrig (MRFG3 3,59%), que divulgam seus balanços trimestrais nesta semana, com expectativas positivas depois que a BRF mostrou resultados acima do esperado se beneficiando de maiores preços. As ações também refletem um incêndio que ocorreu em uma planta de carne bovina nos Kansas, nos Estados Unidos, da sua concorrente Tyson Foods, o que pode fazer com que outras empresas supram a produção da unidade.

Amanhã, investidores devem continuar atentos ao cenário externo, com possíveis desdobramentos das eleições no mercado argentino e de olho na guerra comercial. Na agenda, destaque para o índice de preços ao consumidor norte-americano

O dólar comercial fechou em alta de 1,11% no mercado à vista, cotado a R$ 3,9850 para venda – no maior valor desde 28 de maio, quando fechou a R$ 4,0240 – influenciado pela sessão negativa no exterior com a desvalorização do mercado acionário e de moedas dos países emergentes que foram contaminadas pela Argentina.

O atual presidente argentino, Maurício Macri, perdeu as eleições presidenciais primárias no país, realizadas ontem, para o pré-candidato Alberto Fernández, que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como candidata a vice em sua chapa. Apesar das eleições serem em outubro, o mercado já precifica uma possível vitória de Fernández, o que levou a bolsa argentina a cair mais de 30% e o peso mexicano se desvalorizou em mais de 20%. Aqui, o dólar chegou à máxima de R$ 4,0140 (+1,85%).

“O temor com o retorno de políticas populistas na Argentina preocupa investidores e levou o mercado a se proteger”, comenta o diretor da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer. O economista da Guide Investimentos, Victor Beyruti, destaca a situação atual da economia argentina em recessão, com inflação forte, dívida externa elevada e um pacote de auxílio do Fundo Monetário Internacional (FMI) em curso.

“A volta de um governo intervencionista não traz boas perspectivas para o mercado. Para o Brasil, o setor que mais deve sentir as consequências negativas é a indústria, que têm se deteriorado desde a entrada mais forte da Argentina nesta crise”, reforça o economista.

O analista de câmbio de uma corretora nacional reforça ainda o movimento de busca por refúgio na moeda estrangeira com as incertezas decorrentes da guerra comercial entre os Estados Unidos e China, sem desenho de acordo no curto prazo.

Amanhã, com a agenda de indicadores mais fraca aqui e no exterior, investidores devem seguir atentos à situação na Argentina, além do embate entre norte-americanos e chineses. Aqui, a tramitação da reforma da Previdência no Senado deverá ganhar força. “O clima de aversão ao risco deverá prevalecer. Com a possibilidade de eleição da oposição na Argentina, o ambiente fica mais desconfortável”, diz Spyer que reforça o cenário de volatilidade.

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