Bolsa cai e dólar sobe com atrito entre ministro da Economia e presidente da Câmara

São Paulo – O Ibovespa encerrou em queda de 0,74%, aos 98.040,06 pontos, refletindo as críticas do ministro da Economia, Paulo Guedes, ao parecer da reforma da Previdência, apresentado ontem na comissão especial da Câmara dos Deputados. Os comentários provocaram a reação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que disse que a reforma deve ser aprovada mesmo com crises criadas pelo governo, o que ajudou o índice a reduzir perdas perto do fechamento, depois de ter chegado a cair mais de 1%.

Também colaborou para a queda o cenário externo mais negativo hoje, com tensão entre Estados Unidos e Irã e dados fracos da China. O volume total negociado foi de R$ 17,08 bilhões.

Guedes afirmou que a proposta para reforma da Previdência apresentada ontem pelo relator do projeto na comissão, deputado Samuel Moreira (PSDB) “acaba com a possibilidade de uma nova Previdência”. Segundo ministro, os cortes feitos foram maiores do que o esperado, além de destacar a retirada da do sistema de capitalização, indicando que parlamentares cederam a pressões.  O receio de que o Congresso reagisse mal aos comentários do ministro e uma coletiva de imprensa convocada de última hora hoje às 16h por Maia, fizeram o Ibovespa recuar mais de 1%.

No entanto, o presidente da Câmara manteve previsões de aprovação da reforma no plenário da Casa no primeiro semestre, mesmo criticando fortemente o governo, que chamou de “usina de crises”.

“Qualquer fala do Guedes impacta o mercado e o externo já estava afetando o Ibovespa, tem a questão dos bancos também”, afirmou o especialista em ações da Levante Investimentos, Eduardo Guimarães, que destaca que a reforma e a sua articulação devem continuar sendo o principal catalisador de movimentos dos mercados, sendo monitoradas de perto por investidores.

Entre as ações, as de bancos pesaram para a queda do índice, já que desde ontem refletem a possibilidade de elevação da alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de 15% para 20%, que foi incluída no parecer da reforma, como forma de compensar algumas mudanças no texto. Entre as maiores quedas do setor ficaram as ações do Bradesco (BBDC3 -1,94%; BBDC4 -0,77%) e do Banco do Brasil (BBAS3 -1,90%).

Já as maiores quedas do Ibovespa foram das ações da B3 (B3AS3 -5,32%), da B2W (BTOW3 -3,53%) e ações de siderúrgicas, como Usiminas (USIM5 – 3,02%). Os papéis de siderúrgicas mostraram realização de lucros depois de altas recentes na esteira da alta do minério de ferro e em dia de dados abaixo do esperado da produção industrial da China. Na contramão, as maiores altas do índice foram da MRV (MRVE3 1,82%), da Qualicorp (QUAL3 2,34%) e da BRF (BRFS3 1,81%).

No cenário externo, as bolsas norte-americanas e europeias também operaram com leve queda mostrando maior cautela depois que o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, acusou o Irã de atacar navios petroleiros no golfo de Omã ontem, como uma forma de escapar das sanções dos Estados Unidos sobre o setor.

Na semana que vem, além de continuar acompanhando o andamento da Previdência, investidores irão aguardar pelas decisões do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e do Comitê de Política Monetária (Copom), com expectativas de cortes de juros aumentando. Para o economista-chefe da Codepe Corretora, José Costa, o mercado ainda está comprado e mesmo com algumas correções pode se manter em uma faixa mais elevada, em torno dos 98 mil pontos, caso a reforma continue andando.

O dólar comercial fechou em forte alta de 1,16% no mercado à vista, cotado a R$ 3,9000 para venda – rompendo a sequência de nove pregões seguidos no patamar de R$ 3,80 – influenciado pelo cenário externo negativo para as moedas de países emergentes em meio a indicadores abaixo do esperado na China, escalada da tensão geopolítica entre Estados Unidos e Irã somado aos ruídos políticos com declarações de Paulo Guedes e Rodrigo Maia e viés de correção.

O operador de Correparti, Guilherme França, destaca que um fluxo negativo por parte de um grande fundo estrangeiro, as declarações do ministro [da Economia] Paulo Guedes insatisfeito com o teor do relatório da reforma da Previdência apresentado ontem, além do exterior formaram uma “tempestade perfeita”, e levaram o dólar acima do nível de R$ 3,90.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, rebateu as declarações de Guedes dizendo que o governo se tornou uma “usina de crises” e que o bombeiro deste incêndio será o Congresso. O parlamentar voltou a afirmar que a reforma será aprovada no mês que vem.

Em semana de apresentação do parecer da reforma da Previdência prevendo uma economia ao redor de R$ 915 bilhões em dez anos, contra a estimada de R$ 1,2 trilhão na versão proposta pela equipe econômica do governo federal, o dólar encerra valorizado em 0,56%, após três semanas seguidas de queda. “O foco agora é o cumprimento dos próximos passos. Qualquer atraso na velocidade da tramitação vai gerar volatilidade”, diz o diretor da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer.

Na segunda-feira, em semana encurtada em razão do feriado na quinta-feira, a atenção do mercado será para os bancos centrais. Na quarta-feira, o Banco Central (BC) brasileiro e o norte-americano, Federal Reserve (Fed) anunciarão a decisão de política monetária. Apesar da expectativa de manutenção da taxa de juros em 6,50% ao ano pela décima vez consecutiva, segundo levantamento do Termômetro CMA, o mercado espera “uma indicação mais ‘dovish’ de mudança de política monetária”, avalia o diretor da Mirae.

A equipe econômica do Bradesco aposta que comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC poderá ser ajustada, “no sentido de sinalizar que o balanço de riscos para a inflação está assimétrico para baixo, o que poderia ser o primeiro passo para uma redução [da taxa de juros] à frente.

Quanto ao Fed, o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, avalia “situação mais fácil”, já que a comunicação da autoridade monetária se alinha “no sentido” de um corte em breve.  “Ainda que não ocorra na atual reunião, ganha força para [a reunião de] julho, com expectativa média de 80% entre os analistas”, ressalta.

Na segunda-feira, Spyer aposta que os mercados devem operar em compasso de espera para quarta-feira, atentos à guerra comercial entre Estados Unidos e China, às vésperas do encontro do G-20, onde os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, devem se encontrar para novas conversas em busca de acordo entre os países. Além dos desdobramentos da tensão geopolítica entre o governo norte-americano e o Irã. Aqui, a reforma da Previdência e a articulação política para a aprovação da matéria seguem sendo monitoradas pelo mercado.

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