Bitcoin começa ano em queda e futuro é incerto

24/01/2018 12:08:50

Por: Cristiana Euclydes / Agência CMA

(Foto: Leszek Soltys/FreeImages.com)

São Paulo – Os preços de bitcoins e outras moedas virtuais tiveram ganhos fortes no ano passado, mas começaram este ano voláteis e registraram quedas significativas, levando a divergências sobre o que pode acontecer este ano no mercado de criptomoedas. As previsões variam entre novos recordes de altas e a explosão de uma bolha, segundo analistas consultados pela Agência CMA.

A bitcoin é uma moeda virtual criada em 2009 por um desenvolvedor anônimo, sob o pseudônimo de Satoshi Nakamoto. Ela surgiu com a proposta de ser um meio de pagamento não controlado por nenhum banco central, já que está embasada na tecnologia de blockchain, um sistema que distribui os dados das transações em diversos pontos de uma rede de computadores, em vez de armazená-los em apenas um local. Dessa forma, uma transferência pode ser feita diretamente entre duas pessoas, sem o intermédio de bancos.

Novas moedas são criadas por meio do processo chamado ‘mineração’, no qual computadores poderosos resolvem problemas complexos de matemática para criar novos bitcoins, até atingir o limite pré-estabelecido de 21 milhões de moedas.

A bitcoin é a maior moeda virtual em circulação atualmente, mas não é a única. De acordo com analistas da Capital Economics, a ela se seguem a ethereum, ripple, bitcoin cash e cardano, entre os mais de 1,4 mil tipos de criptomoedas existentes. No entanto, esses meios de pagamento têm baixa aceitação e são usados principalmente como investimento, sujeitos a alta volatilidade. Os altos retornos têm atraído inclusive pequenos investidores.

Um bitcoin valia cerca de US$ 0,003 em 2010. A moeda começou o ano passado sendo negociada por cerca de US$ 1 mil e superou os US$ 18 mil no dia dez de dezembro, dias depois que o primeiro contrato futuro da moeda nos Estados Unidos começou a ser negociado, na Cboe Global Markets. Na ocasião, circularam mais de US$ 75 milhões em contratos.

Uma semana depois, os contratos futuros começaram a ser negociados na bolsa de Chicago, controlada pelo grupo CME, e chegaram próximos do recorde de US$ 20 mil. Cerca de US$ 100 milhões em contratos de bitcoin circularam no primeiro dia da negociação. Os investidores acreditam que, este ano, outras bolsas tradicionais podem começar a operar a moeda.

“Tendo se tornado mais conhecida no ano passado com a estreia em bolsas tradicionais, o entusiasmo pelo bitcoin continuará forte em 2018”, disse o economista Christopher Thomas, da Focus Economics, destacando o potencial de longo prazo. “O estabelecimento de futuros de bitcoin negociados em bolsa foi importante para consolidar criptomoedas como uma classe de ativos, e isso deve abrir oportunidades para outras moedas digitais chegarem ao mainstream este ano”, disse, destacando a ethereum.

Dado o apetite atual dos investidores por criptografia e o crescente potencial de crescimento nos contratos de futuros, vários analistas acreditam que o bitcoin pode atingir o pico de entre US$ 50 mil e US$ 100 mil este ano, chegando ao final de 2018 acima de US$ 25 mil.

“Dada a natureza de ativo emergente e os precedentes históricos recentes, qualquer coisa parece possível no mercado de criptomoedas este ano”, disse. Ele destacou o vencimento otimista dos primeiros contratos de bitcoins em Chicago, o que é um primeiro passo para a próxima fase da adoção consolidada da moeda: contratos de opções.

APERTO REGULATÓRIO

Apesar do otimismo, o bitcoin começou o ano volátil. Os preços caíram quase pela metade desde o fim de 2017, oscilando entre US$ 9,5 mil e US$ 10 mil este ano, valores ainda dez vezes maiores do que há um ano.

Um dos motivos do início de ano fraco são as recentes medidas de reguladores para controlar o mercado de criptomoedas, em especial na Ásia, que concentra a maior parte da atividade global com bitcoins. Na Coreia do Sul, o governo estuda fechar as corretoras que fazem troca de bitcoin por outras moedas, numa tentativa de reduzir a especulação.

Um projeto de lei visa a banir o uso de contas anônimas para transações com criptomoedas e impedir que bancos forneçam serviços de liquidação para transações não identificadas com moedas virtuais em corretoras de bitcoin. O governo sul-coreano também tem alertado sobre o risco de fraudes financeiras e ataques de hackers.

Além disso, em janeiro, autoridades chinesas ordenaram o fechamento de algumas operações de mineração de bitcoins, preocupadas com a lavagem de dinheiro e os riscos ao sistema financeiro. A mineração de bitcoin cresceu muito na China por causa da eletricidade barata.

“As ameaças existentes à moeda não permanecerão limitadas ao ambiente regulatório mais rigoroso e a questões de segurança digital, mas essas preocupações serão as maiores”, disse Thomas, da Focus Economics. Ele destaca que as regras mais duras ameaçam a demanda e estimulam a volatilidade.

Para o economista da Capital Economics, Andrew Kenningham, “o bitcoin está em uma bolha e, em última instância, entrará em colapso e dificilmente sobreviverá”. Segundo ele, a repressão regulatória na Coreia do Sul e na China é um dos fatores que podem causar a explosão da bolha.

“Os reguladores têm boas razões para se preocupar com as ligações entre bitcoin e atividades criminosas e com o potencial de investidores pequenos e mal informados comprarem bitcoins com base em premissas falsas”, disse ele. “Quanto aos mercados de derivativos, não acho que façam uma grande diferença”.

Para Kenningham, o bitcoin não é sustentável no longo prazo, pois não é necessário como meio de pagamento e a maioria das pessoas parece investir na moeda simplesmente na expectativa de que ela continue aumentando de preço. “Esse é um sinal clássico de bolha”, afirmou.

Além disso, medir o valor certo do bitcoin é difícil porque a moeda não é lastreada em nada e não tem nenhum valor intrínseco. “As bolhas são mais prováveis de ocorrer em mercados onde os fundamentos são difíceis de avaliar”, dizem analistas da Capital Economics, em relatório.

RISCOS À ECONOMIA

Mesmo que o bitcoin entre completamente em colapso, os economistas acreditam que não haveria grandes implicações macroeconômicas, uma vez que o valor total da moeda ainda é pequeno em comparação, por exemplo, com o mercado de ações dos Estados Unidos.

Thomas ressaltou que a capitalização de mercado global combinada nas últimas semanas para todas as criptomoedas está bem abaixo de US $ 1 trilhão, o mesmo valor de mercado que a Apple, a maior empresa de capital aberto do mundo.

Além disso, afirmou Kenningham, poucas pessoas fizeram empréstimos para investir em bitcoin e há poucas ligações com o setor bancário. “Portanto, o mecanismo de transmissão pelo qual poderíamos ver implicações macroeconômicas simplesmente não existe”, disse.

Para ele, pode haver um impacto nos gastos nas famílias, uma vez que as pessoas que investiram em criptomoedas sofrerão perdas, mas a capitalização de mercado do bitcoin é pequena para isso seja uma preocupação. Atualmente, a capitalização é de cerca de US$ 240 bilhões, segundo o analista.

Por fim, uma queda nos preços a não deve ter muito efeito sobre a confiança dos investidores e das empresas. “Não há correlação entre os preços de bitcoin e outros ativos de risco, então uma queda no preço não deve afetar as condições financeiras mais amplas. Também não nos diz nada sobre o sentimento mais amplo do mercado”, concluiu.

A VISÃO DOS BCs

Os principais bancos centrais do mundo têm se posicionado sobre o assunto. O Banco Central Europeu (BCE) afirmou em nota que “o aspecto mais relevante do debate sobre bitcoins é a tecnologia blockchain. Juntamente com o Banco do Japão, estamos buscando possíveis aplicações [deste sistema] para nossos sistemas de pagamentos”.

Ainda segundo a nota, o presidente do BCE, Mario Draghi, se posicionou sobre bitcoins em setembro do ano passado, quando disse que ainda é cedo para falar em moedas virtuais como meio de pagamento no futuro. Ele disse que o BCE não discutiu o assunto e não estaria no poder do banco nem proibir nem regulamentar o bitcoin.

Já o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) não divulgou um comunicado oficial sobre moedas virtuais, mas a presidente da instituição, Janet Yellen, comentou o assunto em coletiva de imprensa em dezembro, dizendo que os riscos do bitcoin à estabilidade financeira são limitados e que o bitcoin desempenha um papel muito pequeno no sistema de pagamentos.

“O Fed não desempenha qualquer papel regulatório no que diz respeito ao bitcoin, além de garantir que as organizações bancárias que supervisionamos estejam atentas e gerenciem adequadamente as interações que elas têm com os participantes desse mercado”, disse ela, acrescentando que os bancos têm responsabilidades contra a lavagem de dinheiro, e isso se aplica ao bitcoin.

Por fim, o Banco Central do Brasil alertou sobre os riscos de operações de negociação de moedas virtuais. Em comunicado divulgado em novembro, o BC
disse que elas não são emitidas nem garantidas por qualquer autoridade monetária, por isso não têm garantia de conversão para moedas soberanas e tampouco são lastreadas em ativo real. Os riscos incluem “a possibilidade de perda de todo o capital investido, além da típica variação de preço”.

Edição: Pâmela Reis (pamela.reis@cma.com.br)

Deixar um comentário