BCE vai analisar impacto de taxas negativas em lucro de bancos, diz Draghi

O presidente do Central Europeu (BCE), Mario Draghi. Foto: Divulgação/BCE

Por Cristiana Euclydes

São paulo – O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, rebateu as críticas de que as taxas negativas afetam a lucratividade de todos os bancos na Europa, mas confirmou que os membros do Conselho podem considerar medidas para conter os possíveis impactos negativos desta ferramenta de política monetária.

“As taxas negativas afetam os bancos de formas diferentes. Os lucros dos bancos europeus estão mais altos do que os do Reino unido, que não possui taxas negativas”, disse Draghi, acrescentando que seguem mais baixos que os dos Estados Unidos.

Para Draghi, alguns dos problemas dos bancos europeus foram criados por eles mesmos. “O sistema bancário na Europa está superlotado”, disse. “A necessidade de consolidação do sistema bancário é muito significativa.”

O presidente do BCE também confirmou que a instituição pode considerar se há necessidade de adotar medidas de contingência a possíveis efeitos adversos do uso de taxas negativas na lucratividade dos bancos, como ele já havia sinalizado em um discurso no final de março.

“No contexto de nossa avaliação regular, também consideraremos se a
preservação das implicações favoráveis das taxas de juros negativas para a
economia requer a mitigação de seus possíveis efeitos colaterais, se houver,
na intermediação bancária”, afirmou.

Ele disse ainda que qualquer medida pode ser adotada como parte da revisão das políticas do BCE que será concluída em junho, quando o banco divulgará suas projeções econômicas atualizadas.

Segundo Draghi, mais detalhes sobre as novas operações direcionadas de refinanciamento de longo prazo (TLTROs, na sigla em inglês), que entrarão em vigor em setembro, serão divulgadas nas próximas reuniões do Conselho da instituição, e ainda não há consenso sobre os preços.

“Precisamos ver como a economia vai evoluir para decidir”, afirmou. “O Conselho ainda não é unânime sobre os termos das TLTROS. Há consenso sobre a necessidade de mais análises”. Para Draghi, as novas operações vão contribuir para garantir condições de crédito favoráveis e apoiar o acesso ao financiamento, em particular para pequenas e médias empresas.

Com relação às perspectivas econômicas, o presidente do BCE disse que os riscos aumentaram, mas as chances de recessão na zona do euro permanecem baixas. “O Conselho está pronto para ajustar seus instrumentos se esta contingência se materializar”, afirmou.

Segundo ele, um dos fatores que tem enfraquecido a economia na zona do euro é a menor confiança, que vem de uma combinação de fatores externos. “Mais ameaças de medidas de proteção prejudicam a confiança global”, disse. Esta semana, os Estados Unidos ameaçaram impôr tarifas adicionais à US$ 11 bilhões em produtos importados da UE.

Com relação ao Brexit, ele disse os efeitos sobre a economia da zona do euro serão limitados em geral, mas alguns países que possuem sua economia mais exposta ao Reino Unido podem sofrer consequências mais graves. “Está claro que toda discussão sobre o Brexit, que agora dura muitos anos, faz parte da incerteza geral que paira sobre nosso continente”.

INFLAÇÃO

Draghi também afirmou que o BCE está completamente comprometido com alcançar a meta de inflação de 2% e tem instrumentos suficientes para isso. “Está claro que as expectativas de inflação desaceleraram por causa do prêmio de risco negativo. Isso pode refletir a percepção do mercado de que não temos instrumentos suficientes, mas mostramos que temos muitos recursos”, disse ele, acrescentando que o mercado entendeu a função de reação do BCE.

Outro fator que pode justificara a menor expectativa de inflação é o mercado achar que o BCE tolera taxa de inflação baixa, disse Draghi. “Vou dispersar essas impressões. Não toleramos taxa de inflação baixa. Permanecemos completamente comprometidos com inflação em 2%”, reiterou.

Segundo ele, o BCE não vê a taxa de inflação aproximar-se da meta tão rápido quanto o esperado, e ela deve desacelerar nos próximos meses, com base nos atuais preços futuros do petróleo. Já o núcleo da inflação está suave, mas deve acelerar no médio prazo, apoiado pelas medidas de política monetária.

Por fim, Draghi afirmou que a meta da taxa de inflação em 2% não é um teto, e pode variar em ambas as direções. Ele reiterou que a atual caixa de ferramentas do BCE oferece opções de estender os instrumentos existentes, e o BCE está pronto para ajustar tais instrumentos se necessário para levar a inflação à meta.

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