BCE deve anunciar fim de compra de ativos em julho

12/06/2018 10:30:31

Por: Gustavo Nicoletta / Agência CMA (g.nicoletta@cma.com.br)

Banco Central Europeu

Divulgação BCE

São Paulo – O Banco Central Europeu (BCE) provavelmente deixará para anunciar em julho que encerrará o programa de compra de títulos soberanos da zona do euro, embora exista a possibilidade de haver uma sinalização neste sentido na quinta-feira (14), quando a instituição anunciará sua decisão de política monetária, segundo os analistas consultados pela Agência CMA.

Investidores passaram a esperar um anúncio sobre o fim do programa de compra de dívida soberana do BCE nesta semana porque o economista-chefe do banco central, Peter Praet, disse num discurso na semana passada que a instituição teria de avaliar se há justificativa para iniciar uma redução gradual das aquisições.

Em relatório, o Nordea aponta que o mercado pode estar se deixando influenciar demais por este comentário. “Preferimos a abordagem ‘compra no boato, venda no fato’ antes da reunião do BCE e achamos difícil de enxergar um cenário em que o BCE acabará surpreendendo com um aperto monetário mais acentuado que aquele que vem sendo embutido nas expectativas.”

O Morgan Stanley considera que o presidente do BCE, Mario Draghi, será muito cauteloso durante a entrevista coletiva que concederá após o anúncio da decisão, por causa da desaceleração no crescimento da zona do euro, da imposição de tarifas de importação ao aço e ao alumínio europeus pelos Estados Unidos e das dúvidas sobre a situação fiscal da Itália.

Dados divulgados na semana passada pela agência de estatísticas europeia (Eurostat) mostraram que no primeiro trimestre o Produto Interno Bruto (PIB) da zona do euro cresceu 0,4% em relação aos últimos três meses do ano passado, quando houve avanço de 0,7%. Na comparação anual, o crescimento econômico do bloco também desacelerou, passando de 2,8% no quarto trimestre de 2017 para 2,5% nos primeiros três meses de 2018.

Além disso, no final de maio os Estados Unidos decidiram aplicar novas tarifas às importações de aço e alumínio da União Europeia – com o bloco reagindo e afirmando que haverá retaliação – e na Itália formou-se um governo composto por dois partidos cujo plano econômico inclui medidas que devem aumentar o déficit orçamentário do país – algo que fez dobrar os juros da dívida italiana com vencimento em cinco anos.

Estes três fatores pesam contra o encerramento do programa de compra de títulos soberanos, cujo objetivo é manter as taxas de juros da zona do euro baixas o suficiente para estimular o crédito e, com isso, o crescimento da economia. Na outra ponta, porém, o BCE precisa lidar com a aceleração da alta de preços, o que aumenta a pressão para um aperto da política monetária.

A inflação anual da zona do euro acelerou para 1,9% em maio, de 1,2% em abril, impulsionada principalmente pelo aumento de 6,1% nos preços de energia.

Excluindo do cálculo estes e outros produtos cujos preços possuem comportamento mais volátil, a inflação da eurozona também acelerou, de 1,1% para 1,4%.

“Neste momento, com a recuperação da economia nos trilhos e a confiança na recuperação da inflação aumentando, o banco central pode caminhar em direção ao processo de normalização monetária. No entanto, daqui para frente, Draghi vai adotar uma postura de cautela, enfatizando a incerteza aumentou e que os próximos passos dependerão dos indicadores”, disse o BBVA.

Para o Scotiabank, no melhor cenário possível, “o BCE poderia indicar o fim do programa de compra de ativos, mas adiar a implementação dessa decisão até julho ou setembro”. A sinalização poderia vir num comentário de Draghi afirmando que o assunto foi discutido, mas que não se chegou a nenhuma conclusão, acrescentou.

A consultoria Capital Economics acha que há chances de o BCE anunciar nesta semana o fim do programa de compra de dívida soberana, mas ressalta que a situação da Itália pode adiar esta decisão, visto que os planos fiscais do atual governo italiano podem aumentar o déficit orçamentário de 2% para 8% do PIB.

“Com isto em mente, o aumento acentuado nos juros da dívida da Itália não surpreende. As taxas de outras economias periféricas [da zona do euro] também aumentaram. Se não for resolvido, este aperto das condições financeiras poderia prejudicar a economia da zona do euro. No entanto, não achamos que isso evitará que o BCE anuncie o fim das compras de ativos”, disse a Capital Economics em relatório.

A consultoria aponta que o primeiro-ministro italiano e outros membros do governo sugeriram em comentários recentes que as políticas de governo mais onerosas levarão tempo para ser adotadas. “Além disso, o primeiro ministro disse em discurso que a confiança dos mercados era importante, o que contrasta com o tom mais agressivo de declarações feitas por líderes dos partidos da coalizão”, acrescentou.

Críticas vindas da Itália a respeito das compras de títulos soberanos pelo BCE também podem ajudar a agilizar o fim das compras de ativos, bem como os comentários otimistas feitos por membros do comitê de política monetária do banco central a respeito da economia da zona do euro. Ainda assim, será “por pouco” que o BCE decidirá se anuncia esta semana ou no mês que vem o fim das compras de títulos de dívida soberana, segundo a Capital Economics.

QUANDO OU COMO?

O Morgan Stanley afirmou que é menos importante o momento em que o fim das compras de ativos será anunciado do que o cronograma usado pelo BCE para encerrar as aquisições.

“A trajetória da renormalização das compras de ativos não deve ser muito diferente se o anúncio vier em junho ou julho. Nossa percepção é de que o mercado concorda com a visão dos nossos economistas, de que as compras diminuirão para 10 bilhões de euros por mês no quarto trimestre e serão encerradas até o fim do ano”, acrescentou.

O banco acredita que, independentemente de quando for anunciado, o fim das compras de títulos soberanos em dezembro deste ano resultará em diminuição dos preços dos títulos de dívida da Alemanha, com respectivo aumento dos juros de forma gradual. “Qualquer potencia extensão das compras para além de 2018 deve ser mínima, o que limitaria o espaço para um aumento nos preços dos títulos alemães.

O BBVA prevê que o BCE encerrará as compras de títulos soberanos da zona do euro no quarto trimestre e prevê aumento de juros a partir de 2019, desde que as condições macroeconômicas permitam o aperto monetário e não haja grandes mudanças no cenário político.

“Receios com a política na Itália e com as tensões no comércio mundial provavelmente serão o foco da sessão de perguntas e respostas da entrevista coletiva desta semana, em particular em relação às consequências disso para as economias mundial e europeia”, disse o BBVA.

 

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