Atividade aguarda decisão do Copom, mas dólar e reforma não permitem corte

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Comitê de Política Monetária (Copom). (Foto: Beto Nociti/BCB)

Por: Olívia Bulla

São Paulo – Por mais que a atividade brasileira esteja precisando de um estímulo adicional, a arrancada do dólar rumo à faixa de R$ 4,00 e as leituras mais salgadas da inflação oficial ao consumidor (IPCA) desautorizam o Banco Central a promover um corte na taxa básica de juros hoje. Com isso, a Selic deve permanecer em 6,50% pela nona vez seguida.

“A inflação mais alta no curto prazo eleva as chances de o IPCA do ano ficar acima de 4,0%, mas ainda abaixo da meta de 4,25%. Então o espaço [para queda da Selic] é limitado”, explica o economista sênior do MUFG, Maurício Nakahodo. Ele lembra que a pressão inflacionária não é de demanda, já que o consumo continua fraco.

Ainda assim, os fortes choques de oferta (alimentos, combustíveis etc.) têm feito a inflação rondar níveis elevados, que podem se agravar no caso de uma depreciação adicional do real. “Então, se a economia decolar em meio a um choque de oferta, tem-se um cenário de preços muito pior”, afirma um diretor da tesouraria de um banco estrangeiro.

Trata-se, portanto, de uma encruzilhada, uma vez que o cenário de preços passa por alguma pressão inflacionária, enquanto a recuperação econômica segue lenta. “Resta agora entender como o BC vai atuar nesse ambiente de dualidade”, afirma o economista-chefe da Ativa Investimentos, Carlos Thadeu de Freitas Filho.

Previdência é a chave…

A saída para esse caminho deve ser aberta pela aprovação da reforma da Previdência no Congresso. Porém, o economista do banco Haitong, Flávio Serrano, observa que a magnitude e o timing são os riscos mais importantes à proposta. “É pouco provável não passar, mas difícil ficar perto do ideal. Pode haver certa frustração”, pondera.

Em geral, a estimativa do mercado financeiro é de que as novas regras para aposentadoria sejam aprovadas na virada do terceiro para o quarto trimestre deste ano, passando pelo Senado entre setembro e novembro. Já a economia a ser gerada aos cofres públicos deve girar entre R$ 500 bilhões e R$ 700 bilhões, após certa desidratação no texto original.

Segundo o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, é essa incerteza local, relacionada às dificuldades de aprovação da reforma da Previdência, que tem mantido o real mais depreciado e limitando o espaço para cortes na taxa básica. “Como resultado, o mercado de juros futuros reflete a expectativa de estabilidade da Selic neste ano”, observa.

Para ele, não fosse o risco político, o dólar estaria cotado a um valor próximo a R$ 3,55, o que permitiria uma queda da Selic, diante da frustração com o crescimento. “O debate sobre corte de juros só pode voltar a ganhar espaço caso o dólar caia significativamente e haja nova frustração com o crescimento ou queda substancial das expectativas de inflação.”

…Mas dólar é a tranca

Porém, o economista-chefe da Necton Corretora, André Perfeito, observa que o dólar está forte no mundo, o que põe limites à perspectiva de corte dos juros. “Não é o real que está fraco. E isso é importante, pois mesmo que a discussão da Previdência ande bem, isso não necessariamente irá se traduzir em queda do dólar”, pondera.

Para ele, com a moeda norte-americana flertando a marca de R$ 4,00, o mercado vai, aos poucos, tirar do radar a hipótese de corte de juros por causa da atividade fraca. “O que o BC deve fazer, na verdade, são altas menores no ano que vem”, diz, acrescentando que prevê uma Selic em 7,25% ao final de 2020, contra 7,50% no consenso do mercado.

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