Ambiente político incerto faz bolsa cair e dólar subir a novo patamar de R$ 4,00

Por Danielle Fonseca e Eduardo Puccioni

São Paulo – Após subir mais de 1% pela manhã, o Ibovespa fechou com queda de 0,03%, aos 89.992,73 pontos, – encerrando abaixo dos 90 mil pontos pela primeira vez no ano – com a percepção de que o ambiente político no Brasil está mais conturbado, com o governo Jair Bolsonaro mostrando dificuldades de articulação. Pesou também a escalada da tensão comercial entre Estados Unidos e China. O volume total negociado foi de R$ 17,1 bilhões. Na semana, o índice recuou 4,52%.

Para analistas, depois de ensaiar uma recuperação impulsionado principalmente pela subida dos preços de commodities, como minério de ferro e petróleo, o Ibovespa acabou cedendo ao quadro político deteriorado, em uma semana marcada por avanços nas investigações sobre corrupção envolvendo o filho do presidente, o senador Flavio Bolsonaro, e por protestos contra cortes do governo.

“O mercado está atento a qualquer ruído que vem de Brasília, o presidente tem tido dificuldade não só com a Previdência, mas com qualquer coisa que for votada, ele está com dificuldades de articular. Além disso, as preocupações com a China e Estados Unidos permanecem no radar”, disse a analista da Toro Investimentos, Stefany Oliveira.

O analista da Necton, Glauco Legat, também vê um cenário mais pessimista, com o exterior ampliando temores locais, com problemas na comunicação do governo e ainda revisões de previsão para o crescimento do Brasil. Legat ainda citou declarações de Jair Bolsonaro sobre possíveis mudanças na política de preços da Petrobras caso elas não prejudiquem a companhia, o que pode manter suspeitas de futuras intervenções. Com isso, as ações da Petrobras (PETR3 -0,10%, PETR4 -2,57%), ficaram entre as que mais cederam ao longo do dia, apesar da alta vista pela manhã.

Alguns analistas ainda acreditam que o Ibovespa pode ter sido influenciado pelo início da briga entre comprados e vendidos em função do vencimento de opções sobre ações, que ocorrerá na segunda-feira.

Entre as maiores quedas do índice ficaram as ações da Cielo (CIEL3 -4,34%), da Ultrapar (UGPA4 -4,30%) e da Engie Brasil (EGIE3 -3,15%). Já as maiores altas foram as Suzano (SUZB3 6,09%), da Embraer (EMBR3 4,13%) e da JBS (JBSS3 3,88%), que se beneficiam da forte alta do dólar vista hoje, por serem exportadoras.

Na semana que vem, o cenário político deve continuar a ser observado de perto pelo mercado, que aguarda boas notícias para voltar a subir. “O mercado precisa de uma notícia para acalmar ânimos, quer saber o que o Congresso irá fazer”, disse a analista da Toro. A questão da guerra comercial também deve continuar no radar, em uma semana que ainda contará com a ata da última decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

O dólar comercial seguirá sem viés definido para a próxima semana, com o mercado sabendo apenas que o novo patamar da moeda norte-americana foi fixado nessa semana em R$ 4,00. Claro que tudo vai depender do que vai acontecer na política brasileira ao longo do final de semana. Com influência menor, também é preciso ficar de olho nos desdobramentos da guerra comercial entre Estados Unidos e China.

O principal motivador a alta do dólar nesta semana que passou foi o cenário político interno, com investidores e mercado duvidando da capacidade de articulação do governo de Jair Bolsonaro para uma possível aprovação da reforma da Previdência sem grande desidratação, ou seja, economizando cifras de deem fôlego para o governo nos próximos anos.

“Não dá para dizer hoje sobre um viés para o dólar na semana que vem. Tudo vai depender do que vai acontecer no final de semana na política brasileira. Hoje é o ambiente político que tem puxado o dólar para cima. Bolsonaro segue a retórica da divisão, ao invés da união, aumentando o risco de aprovação da reforma [da Previdência] desidratada”, explicou Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho do Brasil.

Mais cedo, o analista de câmbio da Correparti Corretora, Jefferson Rugik, disse que os investidores estão se protegendo no dólar diante da “falta de habilidade do governo Bolsonaro em enfrentar as recentes crises políticas”, o que eleva o temor de uma reforma da Previdência “menos potente e mais demorada”.

Para ele, ao bater os níveis de R$ 4,10, o mercado tenta trazer o BC para ojogo. “A pergunta que se faz é, será que o dólar no curto prazo estaria mudando para um novo patamar, entre R$ 3,95 e R$ 4,10?”, indaga, acrescentando que ainda é “muito cedo” para afirmar esta mudança. “Mas que [o dólar] está dando sinais [disso], está”, conclui.