Alta dos títulos dos EUA afeta rentabilidade do Tesouro Direto

03/05/2018 17:55:07

Por: Flávya Pereira / Agência CMA

São Paulo – O aumento na taxa de juros dos títulos do governo dos Estados Unidos, os Treasuries, aos maiores patamares desde janeiro de 2014 reflete em outros ativos financeiros, como os títulos do Tesouro Direto. Os juros dos títulos de 10 anos (T-Note) do governo norte-americano, que serve como referência para o mercado de dívida de lá, alcançaram 3% e impactaram as bolsas e ativos ao redor do mundo.

“As T-Notes são os ativos mais importantes do mundo. Elas influenciam o rendimento das ações na bolsa, do dólar e da curva futura de juros. O dólar mais alto, por exemplo, é sempre inflacionário o que, por definição, pressiona a alta no juro local para conter a inflação”, explica o diretor de operações da Mirae Corretora, Pablo Spyer.

Marcela reforça que se os juros sobem lá, os investidores “fogem” dos investimentos daqui. “O impacto é no fluxo de capital que sai do País. Eles param de investir aqui e vão para os títulos do governo norte-americano”, diz. Desde o início do ano, as T-Notes, que a analista resume como “balizadores da economia”, valorizaram 20%, em média, o que acaba refletindo em todos os títulos do Tesouro Direto.

O diretor da Mirae explica que o impacto nos títulos públicos brasileiros se deve à abertura da parte longa da curva de juros, “o que reflete na rentabilidade de quem comprou com o valor pré-fixado, como acontece nas LTNs (Letras do Tesouro Nacional) e as NTN-Fs (Nota do Tesouro Nacional série F).

O professor de economia e finanças da Saint Paul Escola de Negócios, Marcelo Cypriano, explica que a pressão altista dos títulos norte-americanos impacta negativamente os pré-fixados. “O retorno é prejudicado porque quando o juro sobe, o preço cai. A perda de capital diminui o ganho caso o investidor precise vender o título de volta ao Tesouro”, diz.

Ainda sobre as NTN-Fs, Cypriano explica que o título desvaloriza por ter vencimento similar à T-Note. “A NTN-F vence em 2029. Quando o juro da T-Note sobe, o juro dos títulos de prazo equivalente acompanha esse movimento. O retorno vai ser a variação do preço entre a compra e a revenda do título. O valor é pressionado para baixo e o retorno diminui”, avalia o professor.

Os títulos pós-fixados, as NTN-Bs [Notas do Tesouro Nacional série B] também desvalorizam com o avanço nos rendimentos dos títulos do Tesouro norte-americano. “O momento já não é bom para investir nesses pós-fixados por estarem atrelados à inflação, que segue em queda no cenário doméstico. A alta nas taxas lá fora só reforça a queda de rendimento das NTN-Bs nos próximos meses”, diz Cypriano.

Por outro lado, Spyer destaca que como a alta no rendimento das Treasuries acaba pressionando o dólar, “isso tira o espaço do Banco Central de manter a taxa básica de juros [Selic] baixa por muito tempo”, diz. Porém, “de todo, os pós-fixados não estão tão negativos. Quando o juro voltar a subir por aqui, as LFTs [Letras Financeiras do Tesouro, atreladas à Selic] vão subir também e o investidor passa a ganhar”, diz o diretor da Mirae.

Mesmo com cenário econômico indefinido, em relação à taxa básica de juros e à inflação no mercado local, o diretor da Mirae salienta que a curva longa indica alta na taxa de juros. “Se o movimento de alta no juro norte-americano for completo e interpretado desta maneira pelo Banco Central, ele considerará aumentar os juros locais. O juro é uma função da inflação. Claro que as T-Notes exercem influência, mas a inflação prevalece na decisão”, comenta.

Enquanto isso, a expectativa de alta na inflação nos Estados Unidos, observada ao redor de 2%, contribui para a tendência de avanço nas Treasuries. “Com a inflação alta, os juros tendem a subir por lá. Os títulos públicos ficarão mais atrativos e isso pode refletir aqui”, pondera a analista da Levante.

Com a sinalização do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) de “alta moderada e cautelosa, mas sempre analisando a inflação”, há temores de que será possível ver o juro americano na faixa de 2,50% a 2,75% dentro de dois anos, finaliza Spyer.

Edição: Eliane Leite (e.leite@cma.com.br)

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