Ações caem no início da tarde; dólar e juros sobem

São Paulo – Os investidores retornaram do feriado de ontem mais cautelosos e reagindo à perspectiva de que está afastada, ao menos por enquanto, a possibilidade de corte nos juros dos Estados Unidos neste ano.

Por volta das 13h30 (de Brasília), o Ibovespa recuava 0,82%, a 95.560 pontos, enquanto o dólar comercial subia 0,99% no pregão à vista, a R$ 3,9630, e 1,12% no mercado futuro, no caso do contrato para junho, a R$ 3,9715.

Ontem, o Fed manteve a taxa referencial de juros dos Estados Unidos na faixa de 2,25% a 2,50% ao ano, apontou enfraquecimento da inflação e nos gastos de empresas e famílias, mas reiterou a avaliação de que a economia e o nível de emprego estão crescendo em ritmo sólido.

Diante deste cenário, a postura do Fed no momento é apropriada e “não vemos um bom motivo para nos mexermos para nenhuma direção”, disse o presidente da instituição, Jerome Powell, durante uma entrevista coletiva, indicando que o banco central não está inclinado a elevar nem a reduzir os juros.

Antes do anúncio, o mercado chegou a precificar a possibilidade de uma queda nas taxas ainda este ano. Juros menores nos Estados Unidos tendem a favorecer ativos de economias emergentes, como o Brasil, que proporcionam retornos maiores, assim como riscos mais altos.

Para o gestor da Saga Capital, Alexandre Caldas, o movimento da bolsa brasileira hoje reflete a reação tardia do mercado local a uma busca maior por dólares depois da decisão do Fed. “Se você pegar um prazo um pouquinho maior, não foi nada tão relevante.

O mercado ajustou um pouco a expectativa”, disse ele. “Ontem os índices de mercados emergentes acabaram cedendo” e hoje a bolsa brasileira tenta compensar, visto que ontem permaneceu fechada por causa de um feriado, acrescentou.

Em âmbito local, a reforma da Previdência segue sendo o principal assunto na mente dos investidores, embora nesta semana tenha ocorrido pouco avanço na tramitação da proposta. Os investidores, em vez disso, analisam o contexto em torno das medidas. Até haver novidades nesta área, o Ibovespa tende a ficar nos níveis recentes.

“A agenda econômica de uma forma geral é muito positiva, porém, existem duas coisas hoje muito relevantes: problema fiscal e de produtividade. No fundo o urgente é o fiscal e soma-se à questão fiscal o fato de que também neste momento a economia tem demonstrado uma performance mais fraca que o esperado. Num contexto de economia fraca e problema fiscal, a Previdência é fundamental”, avaliou Caldas.

Para ele, o mercado já embutiu nos preços das ações a probabilidade de aprovação de uma reforma da Previdência “desidratada” – ou seja, que economize em uma década menos que os R$ 1,2 trilhão pretendidos pelo governo. O cenário-base do gestor é de uma redução de 30% na economia estimada com a reforma previdenciária.

“Precisa ter sinais melhores em relação a isso para ter rompimento” dos níveis em que o Ibovespa tem negociado, disse o gestor. “Hoje não há grandes evoluções neste sentido e ainda que diagnóstico seja muito positivo, você está pegando uma economia que tem desapontado. Choque de confiança não vem com a agenda de produtividade”, acrescentou.

Caldas apontou que atualmente os riscos para o mercado não são tão assimétricos e que existem chances relativamente parecidas de surpresas positivas e negativas. “Resumindo a história, a posição do fundo hoje é bem moderada. A gente teve bem mais risco do que temos agora”, afirmou.

Para Álvaro Bandeira, economista-chefe do Home Broker modalmais, “tem que esperar para ver o que esses caras vão arrumar na comissão especial [da Câmara dos Deputados que analisará a proposta a partir da semana que vem]. Hoje e manhã deve ser ainda bem indefinido”, disse Bandeira.

Ontem, o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP) disse ser necessário evitar que a aprovação da reforma da Previdência garanta a reeleição do presidente Jair Bolsonaro, o que adicionou um elemento novo na disputa sobre o que fica e o que sai da atual proposta.

Analistas ouvidos pela Agência CMA no início deste ano comentaram que havia a possibilidade de Bolsonaro sacrificar a possibilidade de se reeleger em prol da aprovação de reforma da Previdência com potência fiscal suficiente para permitir a migração para o regime de capitalização, e a manifestação de Paulinho da Força traz essa possibilidade para mais perto da mesa de negociação entre o governo e o Congresso.

Segundo Bandeira, a declaração de Paulinho da Força somada à notícia de que Bolsonaro disse que será reeleito “tomando chope na piscina” caso a nova Previdência seja aprovada gera um quadro que “não convém para a aprovação da reforma.”

Bandeira considera que as modificações no sistema previdenciário precisam gerar uma economia de R$ 1 trilhão ao longo de dez anos. “Forçando a barra um pouquinho, no máximo até R$ 800 bilhões”, afirmou.

A reforma da Previdência economizaria R$ 940 bilhões ao longo de 10 anos se fossem removidas as alterações feitas à aposentadoria rural aos pagamentos a idosos em situação de miséria, como exige o chamado centrão – bloco informal e majoritário na Câmara dos Deputados. O cálculo é do próprio governo.

Para o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, essa incerteza local relacionada às dificuldades de aprovação da reforma da Previdência tem mantido o real mais depreciado, o que limita o espaço para cortes no juro básico. “Como resultado, o mercado reflete a expectativa de estabilidade da Selic neste ano”, observou.

Segundo ele, não fosse o risco político, o dólar estaria cotado a um valor próximo a R$ 3,55, o que permitiria uma queda da Selic, diante da frustração com o crescimento. “O debate sobre corte de juros só pode voltar a ganhar espaço caso o dólar caia significativamente, já no segundo semestre e após a aprovação da reforma na Câmara, e haja novas frustrações com o crescimento ou queda substancial das expectativas de inflação.”

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 tinha taxa de 6,53%, de 6,50% após ajustes na última sessão; o DI para janeiro de 2021 projetava taxa de 7,16%, de 7,12% ao final de abril.

Edição: Gustavo Nicoletta ([email protected])

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com